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“Surubão” do Izakaya: por que é preciso descatequizar o pensamento?

De fato, é uma vergonha aglomerar. Mas as infâmias tinham que acabar aí

“Surubão” do Izakaya: por que é preciso descatequizar o pensamento?
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No último fim de semana, não se falou de outra coisa que não fosse o "surubão" do Izakaya Hyotan. Se você viu o pessoal comentando na sua timeline e não entendeu do que se tratava, eu explico. A página Brasil Fede Covid, que vem denunciando aglomerações em todo o país, publicou fotos de cunho sexual tiradas dentro do restaurante curitibano. Era um encontro fechado para um grupo de aproximadamente dez pessoas que posaram nuas em cima da mesa, dentro da cozinha, coisa e tal.

Estamos enfrentando uma crise sanitária e esse era pra ser o maior problema do evento: uma pequena aglomeração que zombava dos protocolos de segurança contra o coronavírus. Eles eram impraticáveis naquele contexto. Primeiro que não foram decretadas regras para surubas, mas festas estão proibidas. Segundo que podia até haver distanciamento emocional entre os envolvidos, mas físico claramente não havia. Terceiro que, como diz a minha avó, não é bonito ser feio. Precisava mesmo exibir o erro no Instagram

(Aliás, o restaurante publicou uma nota garantindo que as imagens são velhas. Ouvi de boas fontes, em off, que isso não é verdade, mas também não estou aqui para condenar ninguém sem julgamento, então leia a versão dos caras aí.)

Quero mesmo é falar de outra coisa.

Não pude deixar de notar que no dia anterior a mesma página denunciou outra festa clandestina em Curitiba – e tinha muito mais gente sem máscara. Por que, então, a suruba é que viralizou? Joguei o nome do estabelecimento no Twitter e os comentários deram uma boa pista. Eles reforçavam pelo menos três moralismos que o cristianismo tratou de cristalizar até mesmo entre os meus conterrâneos mais descolados: os corpos são sujos; o sexo é sujo; a não monogamia é suja. 

Muita gente ficou enojada ao ver pessoas sem roupa cozinhando a própria comida e transando na mesa dos clientes. Ainda que o estabelecimento não estivesse aberto para o público geral; ainda que o grupo provavelmente tivesse suas próprias regras pactuadas e isso não seja da nossa conta; ainda que geralmente as cozinhas de restaurante sejam desinfetadas diariamente; ainda que as mesas sejam limpas constantemente.

Fiquei me perguntando - com certo pesar - se os twitteiros só transam na cama. Nenhuma aventurazinha no passa-pratos? Não mesmo? Recorro a outra sabedoria popular: o que é de gosto regala a vida.

(Outro adendo: espero que os proprietários tenham limpado a cozinha, em respeito aos demais clientes. Mas essa investigação é trabalho para a Vigilância Sanitária. Sigamos no foco.)

Outros teceram comentários mais diretos (e infelizes) sobre os corpos envolvidos na cena. Sim, papo de estética. É cool falar de autoaceitação, mas quem quer se repensar criticamente antes de navegar no hype da internet? Raciocina, criatura: de onde vem essa imposição de padrões de beleza que você está reproduzindo?

Cá entre nós, como é cafona o preconceito.

Também vale grifar o que está no subtexto. O frisson generalizado é totalmente proporcional ao tamanho do tabu que é o sexo dentro da nossa sociedade, especialmente quando não monogâmico. Deixo mais algumas perguntas retóricas, pega aí: será que na hora de comentar suruba vale tudo? Vale até ofender? Vale até botar o pensamento crítico no bolso? Por que você acha que tem o direito de envenenar o corpo alheio com o seu agrotóxico moralista?

Descolonizar é preciso

No artigo “Sexualidade, cristianismo e poder”, a doutora em psicologia Bruna Suruagy do Amaral Dantas lança a seguinte reflexão: “Tornar o matrimônio uma instituição pública e sagrada permitiu ao clero romano consolidar seu poder político e ampliar sua intervenção na vida íntima dos fiéis. O que pode gerar mais poder a uma instituição do que a capacidade de controlar a intimidade das pessoas e ter acesso a seus segredos?”

A citação é curta, mas diz tanto… Quando as embarcações portuguesas chegaram ao Brasil, os indígenas não usavam roupas, não condenavam o sexo, não colonizavam os corpos. Eram livres. Quem trouxe vestimenta, vergonha e genocídio foram os “cidadãos de bem” daquela época - e que seguem os mesmos. A classe dominante. Homens cishéteros brancos a mando do cristianismo. Conhece essa história?

No fundo, você que é "desconstruído” sabe como é. O discurso que valida o corpo como templo sagrado do espírito santo é o mesmo que autoriza a misoginia; que pune o aborto; que cria a transfobia. Por isso é tão importante repensar a sua piadoca: ela ajuda a alimentar toda uma cadeia de preconceitos, violência e morte. O seu nojo do corpo e das práticas sexuais do colega também é um problema estrutural.

Nesta semana, durante o evento “Till Reason Do Us Part”, uma das maiores pesquisadoras brasileiras da questão indígena no período colonial, a doutora em história Vânia Maria Losada Moreira, disse que colonização e catequização andavam juntas há 500 anos. “A imposição do casamento monogâmico aos indígenas virou uma obsessão dos missionários. Uma obsessão e uma perseguição.” 

Completo dizendo que a obsessão pela “pureza” da “exclusividade” e a perseguição aos dissidentes duram até os dias de hoje. Vira e mexe, o exercício é se perguntar: quem sou eu nesse cenário? 

Rezo para que você não esteja na posição de missionário.

Jess Carvalho

Jess Carvalho

Jornalista investigativa com foco na defesa dos direitos humanos. É formada em Jornalismo pela Universidade Positivo e mestre em Jornalismo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa

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