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Todo fã de Francis Ford Coppola vai lembrar desse dia

Reportagem do Plural acompanhou a passagem do lendário diretor de "O Poderoso Chefão" por Curitiba

Todo fã de Francis Ford Coppola vai lembrar desse dia
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Os fãs aglomerados em frente ao Cine Passeio cantavam um tema de Nino Rota que há 52 anos não sai da cabeça dos cinéfilos. Esperavam ansiosamente Francis Ford Coppola, o lendário diretor que, segundo se dizia, estava por chegar. Não havia nada confirmado. Coppola já estava na cidade para promover seu “Megalópolis”, tinha dado uma masterclass para 1,2 mil pessoas - mas a presença dele na exibição do filme era incerta. O próprio horário da sessão era incerto: o início podia ser em qualquer momento entre 17h30 e 20h. Quem se importava? Para aquele pessoal, a sessão, caso acontecesse, era uma oferta que nenhum deles seria capaz de recusar.

Aquele era o homem que dirigiu Marlon Brando interpretando Don Corleone. Era o sujeito que ajudou a revelar Al Pacino e Robert De Niro. Era o obsessivo que se enfiou na mata das Filipinas com o livro de Joseph Conrad debaixo do braço, sem nenhum roteiro, e saiu de lá com "Apocalipse Now" - não sem antes ver Martin Sheen infartar.

Foi também o diretor que encomendou a Nino Rota o tema cantado pelos fãs em frente ao Cine Passeio, enquanto a segurança vasculhava os banheiros atrás de possíveis desesperados para entrarem de penetra no cinema (gente que não conseguiu comprar os ingressos nem dos espertos que davam uma de cambista do lado de fora).

O cheiro da cama pela manhã

A própria vinda de Coppola a Curitiba parecia um milagre de Natal para os fãs - do nada, o cineasta começou a espalhar que a trama de seu filme era inspirada na cidade, que ele visitou 21 anos antes, e em Jaime Lerner. E, igualmente do nada, Coppola anunciou que ia entrar em seu jatinho particular para vir à cidade.

O Falcon era grande demais para a Base Aérea do Bacacheri e teve de pousar no Afonso Pena. De lá, Coppola rumou de carro até o Bourbon, o mesmo onde havia se hospedado em 2003.

Quem tinha bolado a agenda do diretor imaginou que ele ia começar cedo, e marcou compromisso já para as nove da madrugada. Coppola gentilmente recusou - aparentemente o cineasta de 85 anos hoje prefere o cheiro de uma boa cama pela manhã.

Seguindo seu próprio ritmo, Coppola saiu do hotel para o Teatro Guaíra. A ideia de uma aula na Tuiuti vazou e foi crescendo, terminou em uma masterclass para mais de 1.200 pessoas (tudo o que a equipe de assessores dele não queria).

Enquanto a plateia esperada, Mr. Coppola estava dando trabalho para seu motorista. A comunicação, pelo que dizem, não era fácil, e o homem queria fazer de tudo.

https://www.youtube.com/watch?v=D0TutQ7mJXo

O pedido de parar para entrar em uma Estação Tubo e fazer fotos foi atendido. Mas não deu para aceitar ir para XV de Novembro nem para o Farol do Saber enquanto o Guairão inteiro esperava. Sim, Coppola recebeu um não.

Apoiado em uma bengala, num terno claro e com uma gravata multicolorida (o que seria aquilo? Um mapa?) o diretor chegou ao teatro.

Nos bastidores, um estúdio inteiramente preparado para uma entrevista com o diretor estava montado. Ele não parou ali nem na ida, nem na volta. Inclusive deixou a equipe de cabelo em pé porque entrou no palco sem aviso prévio, andando mais rápido que de costume. Homenagens ao final da aula? Ele não estava interessado. Foi embora.

Leve o café. Traga o cannoli

Ratinho Júnior, um homem que chegou ao posto de governador tão desejado por Corleone para seu filho Michael, havia reservado ao cineasta a condecoração da Ordem do Pinheiro e pôde almoçar com o diretor e uns poucos convidados (como o cineasta Guto Pasko e Luiz Gustavo Vilela Teixeira, da PrFilm Commission).

No final da refeição, serviram café coado o Coppola. O cineasta é um gourmet do tipo que sempre coloca uma receita de comida em cada filme - segundo ele, se nada mais prestar na trama, pelo menos a pessoa aprendeu a cozinhar algo. E pelo jeito não gostou do café oferecido. “Vocês não têm café espresso?!" Não deu tempo para atender ao pedido.

Na entrega da comenda, o bom humor escapou do rosto do diretor na segunda e última pergunta da coletiva, quando ouviu "Megalópolis" ser classificado como distopia (sob alegação de que isso teria sido declarado pelo próprio Coppola). O homem não gostou e fez uma pequena diatribe contra a imprensa: não se apura bem, repórteres pegam o que outros profissionais disseram e reproduzem. E disse com firmeza que nunca falou em distopia: na opinião dele o filme é uma fábula.

Logo em seguida, Coppola saiu da sala. O diretor deveria parar para uma sessão de fotos com a imprensa. Mas que nada. Seguiu para fora do prédio com os repórteres parados esperando por ele. Sorte de quem foi barrado na portaria, ficou de fora do evento e pegou Coppola de bom humor na saída (três pessoas apenas, dois estudantes de cinema e a fotógrafa do Plural, Tami Taketani). O tédio do rosto dele durante toda a formalidade da entrega da homenagem anterior já tinha ido embora (na masterclass, ele contou a história das três estatuetas do Oscar que jogou pela janela).

E aí ele mudou tudo, de novo. Insistiu e foi levado a um Farol do Saber no momento mais anônimo de Coppola durante sua quinta-feira curitibana. Não estava previsto, foi decidido naquele instante. Entrou ali como um qualquer e esteve livre por alguns momentos. E liberdade é uma das coisas que ele persegue, valoriza, como afirmou aos jovens no teatro antes do almoço. Logo que os vizinhos descobriram o acontecimento, partiu para o próximo destino.

"Megalópolis"

Em seguida, Coppola teve que encarar que na vida nem tudo é como num filme. Ele queria, queria muito e pediu para dormir no estúdio de Jaime Lerner, passar a noite ali. A visita ao Instituto com o nome do célebre arquiteto era parte da programação oficial, uma reverência a Ilana Lerner e ao legado de seu pai. Ela quis atender, não teve como. Não teria como oferecer o devido conforto, sem um banheiro adequado ao momento e ainda com muitas escadas. Só visitou o local mesmo.

Qualquer um já estaria cansado aqui. Talvez por isso Coppola tenha passado no hotel antes de seguir para a sessão de estreia de "Megalópolis".

Sim, ele foi. Mas para desviar da multidão cantando o tema de Nino Rota, precisou entrar pelo estacionamento e a esperada passagem pelo tapete vermelho não aconteceu. O octogenário diretor estava cansado, obviamente. Entrou na sala com um bolo de gente ao seu redor, falou rapidamente sem ser ouvido por boa parte dos presentes, e foi embora. Deixou Curitiba ainda na noite de quinta.

O filme? Talvez seja uma fábula mesmo - assim como a passagem do diretor por Curitiba também foi.


Leia também: Vagas para aula com Coppola no Guairão esgotam em meia hora

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

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