Pular para o conteúdo

Um projeto para descolonizar a Língua Portuguesa

'Não Fale a Língua do Racismo' foi desenvolvido por estudantes de Jornalismo de Curitiba

Um projeto para descolonizar a Língua Portuguesa
Publicado:

Cento e trinta e três anos é pouco tempo para desmantelar a cultura racista construída durante mais de três séculos no Brasil. Herança desse período, o pensamento colonial dita até hoje a maneira como a população se comporta, pensa e fala. Todos os dias, mesmo que inconscientemente, os brasileiros reproduzem expressões racistas que contribuem para a perpetuação da discriminação racial.

Na busca por reverter este cenário, um grupo de estudantes de Jornalismo da Universidade Positivo (UP), em Curitiba, criou o "Não Fale a Língua do Racismo", uma série de vídeos que explicam expressões preconceituosas da Língua Portuguesa e indicam sinônimos para substituí-las. 

"O racismo está presente nas nossas vidas. Isso faz parte da nossa cultura porque está na nossa língua, e a gente nem percebe. São expressões que reafirmam estereótipos e trazem em si uma carga muito negativa. É necessário desconstruir isso. E esse é o objetivo do 'Não Fale a Língua do Racismo'", afirma o idealizador do projeto, Higor Paulino.

O estudante conta que a ideia surgiu a partir de uma série de reflexões que os alunos foram estimulados a ter ao longo da disciplina de Mídia, Gênero e Etnia. Inspirado pela leitura do Pequeno manual antirracista, de Djamila Ribeiro, Higor produziu um vídeo que logo se transformou em um projeto maior com a ajuda da professora e de outros alunos.

Na visão do estudante, a linguagem é influenciada por uma série de fatores, como por exemplo região, época e classe social de determinada pessoa. "Eu acredito que a forma como a gente se expressa tem relação com a nossa identidade. A linguagem é algo cultural e pode ser muito carregada de violência", afirma. 

Para Higor, além de revisar e desconstruir esses termos, é preciso buscar outras formas de comunicação. "Além de estimular que o nosso público pense criticamente sobre o vocabulário que tem, a gente também passou a pensar mais criticamente sobre essas expressões."

Sandra Nodari, professora que leciona a disciplina, ficou tão encantada com a proposta que buscou uma parceria com uma rede televisiva para exibir o trabalho. "Sempre que uma boa reportagem ou um bom vídeo é produzido em sala de aula, eu negocio com os interlocutores do Canal Futura a possibilidade de exibição. Este é um processo demorado, de negociação, que tem de respeitar as exigências técnicas da emissora e também o registro na Ancine (Agência Nacional do Cinema). Tudo isso leva tempo, mas é interessante quando estudantes podem participar deste processo", afirma.

Para ela, debater temas como racismo, masculinidades e feminismos com os alunos em sala de aula foi algo transformador. "O processo todo foi encantador. Uma disciplina teórica produziu discussões excelentes e resultou em programas educativos que vão instigar as pessoas a pensar sobre como evitar palavras racistas", conclui. 

"Não Fale a Língua do Racismo" será exibido semanalmente no Canal Futura. O primeiro dos oito episódios foi ao ar nesta sexta-feira (5), às 22h. A série está disponível, na íntegra, no site do Futura Play.

Expressões que descendem do período escravocrata brasileiro:

Criado Mudo

O nome do móvel que é colocado na cabeceira da cama se refere ao escravizado que ficava em pé, ao lado da cama do senhor, geralmente segurando água e objetos durante toda a noite, em silêncio. 

Mulata

O termo se refere à mula, animal originado do cruzamento entre a égua e o burro. Assim eram chamadas as filhas bastardas dos senhores com as mulheres negras escravizadas.

Nhaca

Inhaca é uma ilha em Moçambique, onde vivem os Nhacas, do povo Bantu. No entanto, a palavra nhaca é usada para se referir a algo fétido.

Nega Maluca

A expressão nega maluca faz referência a um bolo de chocolate. No entanto, ela reflete um estereótipo pejorativo da mulher negra.

A coisa tá preta

Esta expressão reflete a associação entre o “preto” e uma situação ruim, complicada, difícil, perigosa. 

Meia tigela

Quando os negros escravizados não conseguiam atingir a "meta" em seus trabalhos recebiam como punição apenas metade da tigela de comida. Eles eram apelidados de "meia tigela", que hoje significa algo de pouco valor e/ou medíocre. 

Doméstica 

A palavra era utilizada por patrões brancos para classificar as mulheres negras escravizadas que trabalhavam para eles e eram domesticadas por meio da tortura.

Não sou tuas negas

Esta expressão remete à mulher negra como alguém com quem se pode fazer tudo. Na escravidão, elas eram consideradas “propriedades” dos seus senhores, homens que as agrediam, assediavam e estupravam sem que nada acontecesse contra eles.

Colaborou: Maria Cecília Zarpelon

Mais em Vizinhança Curitiba

Ver todos

Mais de Redação Plural

Ver todos

De nossos parceiros