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Uma Marcha para Exu em Curitiba

Marcha para Exu reuniu 800 mil em São Paulo. Agora inspira movimentos semelhantes em outras cidades, incluindo Curitiba

Uma Marcha para Exu em Curitiba
Jonathan Pires – Arquivo Pessoal
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No dia 17 de agosto, a cidade de São Paulo recebeu a 3ª Marcha Para Exu. A manifestação reuniu cerca de 800 mil pessoas na Avenida Paulista para celebrar as religiões de matriz africana. Com o tema, “Nunca foi sorte, sempre foi macumba”, o evento destacou a valorização das tradições de matriz africana e a luta contra os estigmas que cercam a Umbanda e o Candomblé.

A Marcha para Exu se consolida como uma das mais importantes manifestações contra a intolerância religiosa no Brasil. E também inspira iniciativas em cidades de outros estados. Em Recife, por exemplo, a 1ª Marcha para Exu aconteceu no último dia 24 e uma primeira edição deve acontecer também no Rio de Janeiro ainda esse ano.

Em Curitiba também existe uma iniciativa semelhante. Aqui, a ideia de uma marcha que valorize as religiões de matriz africana é encabeçada pelo gabinete da vereadora Giorgia Prates (PT) e conta com a participação de organizações e praticantes de umbanda e candomblé.

A vereadora explica que tem um Projeto de “Lei Curitiba do Axé” que institui as religiões de matriz afro ameríndias em patrimônio imaterial cultural da cidade. E por meio dessa iniciativa decidiu fomentar uma marcha de religiões de matriz afro na capital. “Decidi promover esse evento após entender o desejo e a necessidade dessas comunidades: a maioria dos terreiros da cidade sofre com o preconceito e com a intolerância religiosa. Curitiba tem a Marcha para Jesus que é um evento bem grande, mas quando olhamos para o espectro das religiões de matriz africana, não vemos nem o mesmo espaço nem a mesma aceitação”, diz.

Giorgia destaca ainda que o objetivo de uma marcha das religiões de matriz africana em Curitiba é divulgar a cultura do axé, porque o preconceito sempre tem como base o desconhecimento. “Quem critica ou promove a violência contra os preceitos tradicionais do nosso povo não compreende nossa cultura. Entendo que o primeiro passo é promover esse letramento. É muito comum ouvir de quem é do axé o medo e o receio de se expor, pelos ataques que podem sofrer. Está na constituição que o direito à crença é inviolável, mas na prática isso não acontece”.

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O Fórum Paranaense das Religiões de Matriz Africana, que é uma instituição que atua na defesa dos povos de terreiro e no fortalecimento da resistência contra o racismo religioso, também participa da organização da Marcha para Exu na capital paranaense. Quem explica é o coordenador geral, Baba Flávio Maciel. “Além de apoiar e participar de diversas atividades promovidas por outros grupos, o Fórum vem fomentando a necessidade de reativar uma passeata popular dos povos de terreiro, retomando uma tradição de mobilizações já realizadas no passado contra a intolerância religiosa”, destaca.

Organização foi vítima de intolerância durante reunião online

No dia 11 de julho a organização da marcha em Curitiba realizava a segunda reunião online para discutir ações de divulgação e mobilização, definição da rota da Marcha, parcerias e apoios, entre outros temas, quando foi invadida.

Os intrusos promoveram ataques com frases de intolerância contra as religiões de matriz afro e a reunião precisou ser cancelada. A vereadora Giorgia ressalta que foi um episódio lamentável que só sublinha a questão do racismo e racismo religioso.  “Mas não vamos permitir que as comunidades tradicionais de Curitiba e os povos de axé sejam desrespeitados, porque existem leis que asseguram nossos direitos”, diz.

Um marco que virou marca

Jonathan Pires, Babalorixá de São Paulo e criador de conteúdo digital é o idealizador da Marcha para Exu que aconteceu pela terceira vez na capital paulista no último dia 17. E ele está participando da organização em outras cidades, já que sem ele o evento não acontece, pelo menos não com o mesmo nome.

Pires patenteou o nome “Marcha para Exu” e para utiliza-lo organizadores de outras cidades precisam estar sob os olhares do Babalorixá e influencer. Ao Plural, ele ressaltou que o objetivo de patentear o nome é porque a Marcha “não é uma festa, não é um bloco de rua e muito menos um produto a ser usado de qualquer jeito”.

Ele argumenta que o evento é um movimento histórico, carregado de fé, responsabilidade e luta e que acima de tudo é independente, por isso a necessidade de patenteá-la. “Registrar foi uma forma de proteger o nome e a essência dela, para que não seja usado por pessoas ou grupos com outros interesses, seja político, financeiro ou religioso. Quem viveu sabe: a Marcha nasceu independente e é assim que precisa continuar”, justifica.

Questionado se impedir que outras cidades usem o nome pode enfraquecer a luta contra a intolerância religiosa, ele diz que não, ressalta que a intenção é apenas proteger o nome e as características que marcaram o evento nas suas três edições. “O que eu faço não é impedir a luta meu irmão, pelo contrário, eu incentivo que cada cidade, cada estado crie os seus próprios movimentos, atos, caminhadas e manifestações contra a intolerância. O que não pode acontecer é usar o nome Marcha para Exú sem o devido respeito e a responsabilidade que ele carrega”, argumenta.

A vereadora Giorgia ressalta que ter o direito de uso exclusivo do nome da Marcha é imprudente. “Pessoalmente, questiono muito isso porque considero temerário que o axé seja visto como propriedade. Quem pode se dizer dono de Exu?”, indaga.

Já Flavio Maciel diz que a informação de que a Marcha para Exu teria sido patenteada causou estranhamento e preocupação. “Vivemos em um mundo em que muitas pessoas tentam controlar ou mercantilizar movimentos populares, como se atos de resistência, culturais e religiosos pudessem ser limitados por direitos comerciais”.

O coordenador do Fórum Paranaense das Religiões de Matriz Africanas destaca que, historicamente, o povo sempre se mobilizou nas ruas em incontáveis passeatas, primaveras, caminhadas e levantes, buscando resistência, reconhecimento e transformação social. Patenteá-los desconsidera essa memória e o caráter coletivo das mobilizações populares.

“No caso específico de Exu, a questão é ainda mais delicada: Exu é uma divindade livre, essencial na tradição afro-brasileira, que não pode ser controlada ou limitada por interesses individuais. Qualquer tentativa de monopolizar um ato em nome de Exú revela uma visão colonizada e restritiva, que desconhece a historicidade, a religiosidade e a força comunitária dos povos de terreiro”, conclui.

José Pires

José Pires

Jornalista com mais de 10 anos de experiência na cobertura dos povos indígenas do Sul do Brasil; meio ambiente; política; cultura e liberdade religiosa

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