No dia 17 de agosto, a cidade de São Paulo recebeu a 3ª Marcha Para Exu. A manifestação reuniu cerca de 800 mil pessoas na Avenida Paulista para celebrar as religiões de matriz africana. Com o tema, “Nunca foi sorte, sempre foi macumba”, o evento destacou a valorização das tradições de matriz africana e a luta contra os estigmas que cercam a Umbanda e o Candomblé.
A Marcha para Exu se consolida como uma das mais importantes manifestações contra a intolerância religiosa no Brasil. E também inspira iniciativas em cidades de outros estados. Em Recife, por exemplo, a 1ª Marcha para Exu aconteceu no último dia 24 e uma primeira edição deve acontecer também no Rio de Janeiro ainda esse ano.
Em Curitiba também existe uma iniciativa semelhante. Aqui, a ideia de uma marcha que valorize as religiões de matriz africana é encabeçada pelo gabinete da vereadora Giorgia Prates (PT) e conta com a participação de organizações e praticantes de umbanda e candomblé.
A vereadora explica que tem um Projeto de “Lei Curitiba do Axé” que institui as religiões de matriz afro ameríndias em patrimônio imaterial cultural da cidade. E por meio dessa iniciativa decidiu fomentar uma marcha de religiões de matriz afro na capital. “Decidi promover esse evento após entender o desejo e a necessidade dessas comunidades: a maioria dos terreiros da cidade sofre com o preconceito e com a intolerância religiosa. Curitiba tem a Marcha para Jesus que é um evento bem grande, mas quando olhamos para o espectro das religiões de matriz africana, não vemos nem o mesmo espaço nem a mesma aceitação”, diz.
Giorgia destaca ainda que o objetivo de uma marcha das religiões de matriz africana em Curitiba é divulgar a cultura do axé, porque o preconceito sempre tem como base o desconhecimento. “Quem critica ou promove a violência contra os preceitos tradicionais do nosso povo não compreende nossa cultura. Entendo que o primeiro passo é promover esse letramento. É muito comum ouvir de quem é do axé o medo e o receio de se expor, pelos ataques que podem sofrer. Está na constituição que o direito à crença é inviolável, mas na prática isso não acontece”.

O Fórum Paranaense das Religiões de Matriz Africana, que é uma instituição que atua na defesa dos povos de terreiro e no fortalecimento da resistência contra o racismo religioso, também participa da organização da Marcha para Exu na capital paranaense. Quem explica é o coordenador geral, Baba Flávio Maciel. “Além de apoiar e participar de diversas atividades promovidas por outros grupos, o Fórum vem fomentando a necessidade de reativar uma passeata popular dos povos de terreiro, retomando uma tradição de mobilizações já realizadas no passado contra a intolerância religiosa”, destaca.
Organização foi vítima de intolerância durante reunião online
No dia 11 de julho a organização da marcha em Curitiba realizava a segunda reunião online para discutir ações de divulgação e mobilização, definição da rota da Marcha, parcerias e apoios, entre outros temas, quando foi invadida.
Os intrusos promoveram ataques com frases de intolerância contra as religiões de matriz afro e a reunião precisou ser cancelada. A vereadora Giorgia ressalta que foi um episódio lamentável que só sublinha a questão do racismo e racismo religioso. “Mas não vamos permitir que as comunidades tradicionais de Curitiba e os povos de axé sejam desrespeitados, porque existem leis que asseguram nossos direitos”, diz.
Um marco que virou marca
Jonathan Pires, Babalorixá de São Paulo e criador de conteúdo digital é o idealizador da Marcha para Exu que aconteceu pela terceira vez na capital paulista no último dia 17. E ele está participando da organização em outras cidades, já que sem ele o evento não acontece, pelo menos não com o mesmo nome.
Pires patenteou o nome “Marcha para Exu” e para utiliza-lo organizadores de outras cidades precisam estar sob os olhares do Babalorixá e influencer. Ao Plural, ele ressaltou que o objetivo de patentear o nome é porque a Marcha “não é uma festa, não é um bloco de rua e muito menos um produto a ser usado de qualquer jeito”.
Ele argumenta que o evento é um movimento histórico, carregado de fé, responsabilidade e luta e que acima de tudo é independente, por isso a necessidade de patenteá-la. “Registrar foi uma forma de proteger o nome e a essência dela, para que não seja usado por pessoas ou grupos com outros interesses, seja político, financeiro ou religioso. Quem viveu sabe: a Marcha nasceu independente e é assim que precisa continuar”, justifica.
Questionado se impedir que outras cidades usem o nome pode enfraquecer a luta contra a intolerância religiosa, ele diz que não, ressalta que a intenção é apenas proteger o nome e as características que marcaram o evento nas suas três edições. “O que eu faço não é impedir a luta meu irmão, pelo contrário, eu incentivo que cada cidade, cada estado crie os seus próprios movimentos, atos, caminhadas e manifestações contra a intolerância. O que não pode acontecer é usar o nome Marcha para Exú sem o devido respeito e a responsabilidade que ele carrega”, argumenta.
A vereadora Giorgia ressalta que ter o direito de uso exclusivo do nome da Marcha é imprudente. “Pessoalmente, questiono muito isso porque considero temerário que o axé seja visto como propriedade. Quem pode se dizer dono de Exu?”, indaga.
Já Flavio Maciel diz que a informação de que a Marcha para Exu teria sido patenteada causou estranhamento e preocupação. “Vivemos em um mundo em que muitas pessoas tentam controlar ou mercantilizar movimentos populares, como se atos de resistência, culturais e religiosos pudessem ser limitados por direitos comerciais”.
O coordenador do Fórum Paranaense das Religiões de Matriz Africanas destaca que, historicamente, o povo sempre se mobilizou nas ruas em incontáveis passeatas, primaveras, caminhadas e levantes, buscando resistência, reconhecimento e transformação social. Patenteá-los desconsidera essa memória e o caráter coletivo das mobilizações populares.
“No caso específico de Exu, a questão é ainda mais delicada: Exu é uma divindade livre, essencial na tradição afro-brasileira, que não pode ser controlada ou limitada por interesses individuais. Qualquer tentativa de monopolizar um ato em nome de Exú revela uma visão colonizada e restritiva, que desconhece a historicidade, a religiosidade e a força comunitária dos povos de terreiro”, conclui.