Um evento dedicado ao cinema popular e comercial sem deixar de lado a qualidade. Assim é o Festival de Cinema da Lapa, que chegou neste ano à 16ª edição exibindo longas-metragens que haviam alcançado grandes bilheterias neste e no ano passado. A ideia é justamente esta, explica o curador da mostra há mais de uma década, o cineasta Fernando Severo, com a autoridade de quem detém quase uma centena de prêmios, entre eles dois Kikitos ganhos no Festival de Gramado.
Severo lembra que a Lapa e região não dispõem de salas de cinema e o festival leva, para exibição na tela grande, o que faz a grande diferença, algumas das melhores produções nos gêneros de comédia, drama, aventura e infantil, sempre numa programação extensa e totalmente gratuita. Na maioria dos casos, os filmes sequer chegaram ao streaming.
O diretor do filme “Jardim de Girassóis”, Marcelo Antunez, premiado no ano passado como melhor diretor pelo filme "Silvio", repetiu a dose neste ano; e levou de quebra o prêmio de melhor filme do júri oficial. Ele acredita que haja até um certo preconceito contra películas que vem obtendo uma maior interlocução com o público, em contraposição aos filmes que o também diretor - de comédias muito bem sucedidas - Hsu Chein cita como "mais autorais e independentes". Chein este ano integra o júri, mas já foi premiado na Lapa com “Desapega” e por “De Repente, Miss!”.
Antunez avalia que muitos festivais acreditam que há uma separação entre o cinema de entretenimento e o cinema dito mais intelectual, o que aborda um tipo de tema de maneira mais profunda. “Eu particularmente acho que isso não é verdade. Acho que é possível unir as duas coisas, fazer um filme que o público se entretenha e ao mesmo tempo fale de um tema de maneira um pouco mais profunda”, diz, para acrescentar que “o Festival da Lapa não tem esse preconceito. É um festival muito diferenciado nesse sentido”.
“A maioria dos festivais brasileiros abraça um tipo de filme mais artístico; e não estou falando de qualidade, mas de obras mais autorais, independentes”, concorda Hsu Chein. Ele conta que quando participou do Festival da Lapa pela primeira vez ficou surpreso por que a mostra, além dos filmes independentes, também abraça os filmes comerciais. “Eu achei muito interessante, porque, como diretor, eu sentia esse vácuo. A gente produz filmes e eles não circulam em festivais; e cidades como a Lapa, onde não há salas de cinema, onde as pessoas poderiam assistir?”, lamenta. E ele completa: “Ver as famílias que comparecem às sessões é muito gratificante. Pra mim, como realizador, é um presente”.
De certa forma, uma mostra como a da Lapa supre essa lacuna, uma vez que as pessoas ouvem falar dos filmes mas sua exibição também não chegou ainda ao streaming. Sem contar a janela que é aberta para filmes de curta-metragem, que tem pouquíssimas oportunidades de chegar a um público mais amplo. Além da exibição, os realizadores ainda participam de discussões, que podem ser enriquecedoras.
Marcelo Antunez elogia a curadoria da mostra da Lapa por não ter preconceitos. “Você pega uma comédia para a mostra competitiva, um filme comercial e mais popular, e ele é exibido ao lado de um filme que não é um filme de público; e coloca na mesma categoria”. Neste ano, exemplos claros dessa afirmação são os filmes “A Palavra”, de Guilherme de Almeida Prado, e a comédia dramática “Câncer com Ascendente em Virgem”, de Rosane Svartman, também autora da atual novela “Dona de Mim”, da Rede Globo. “O que nos importa é trazer obras de qualidade que proporcionem entretenimento à população”, saliente a coordenadora e criadora do festival, Maria Inês Borges da Silveira.
Antunez avalia que a curadoria precisa estar isenta de preconceitos, assim como tem que confiar muito no corpo de jurados, que precisa ter experiência e estofo suficientes para olhar para esses dois produtos e saber que se destinam a públicos diferentes e saber que não é isso que está sendo avaliado, e sim suas qualidades como obra cinematográfica. “Acho que o Festival da Lapa faz isso; tem uma curadoria diferenciada, sem preconceito e tem um corpo de jurados que está à altura desse desafio de fazer um festival mais abrangente”.
“A Lapa abraça esses dois universos”, concorda Hsu Chein. “Tem essa mescla e isso é muito bacana, além de contribuir para aumentar o interesse do público”.
Veteranos da Lapa, os dois diretores fazem questão de salientar o aspecto de formação do festival, que leva oficinas até escolas da cidade e da zona rural; promove cursos sobre diversos aspectos da arte cinematográfica e até transporta crianças e adolescentes para assistir filmes durante a mostra. Tudo absolutamente de forma gratuita.
“Isso nunca deixo de comentar, tanto em entrevistas como com pessoas com quem converso”, conta Antunez, “a parte de capacitação me encanta de verdade. É uma iniciativa linda”. Ele completa: “E não interromper a realização da mostra mesmo com dificuldades; acreditar de verdade na missão que tem, de divulgar a cultura, trazer cultura tanto pra quem já gosta e consome como pra públicos novos. Dá para sentir a vocação da Lapa na formação de público”.