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Única múmia que restou no Brasil completa 30 anos em Curitiba

Conheça os bastidores da chegada de Tothmea no Museu Egípcio e Rosacruz, da tutela legal e das pesquisas sobre a história da múmia   

Única múmia que restou no Brasil completa 30 anos em Curitiba
Reconstrução facial de Tothmea. (Reprodução do blogue de Cícero Moraes.)
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A única múmia verdadeira de corpo inteiro no Brasil atualmente chegou a Curitiba há 30 anos, e para celebrar a data, o Museu Egípcio e Rosacruz Tutankhamon promove programação especial com exposição sobre a trajetória de Tothmea, que atravessou séculos, continentes e países após a morte. A abertura da mostra é neste sábado, 12 de abril, e o evento também apresenta palestra do professor Moacir Elias Santos e lançamento de curta-metragem, com panorama inédito da história documentada da múmia e das pesquisas mais recentes sobre ela. O Plural descobriu como foi a chegada de Tothmea no museu curitibano, detalhes sobre a tutela legal e das pesquisas sobre a história da múmia. Confira a seguir. 

Como Tothmea chegou em Curitiba

Segundo a historiadora e gerente cultural do Museu Egípcio e Rosacruz Tutankhamon, Vivian Tedardi, Tothmea foi adquirida pelo Museu Rosacruz de San Jose, na Califórnia (EUA), e depois doada à instituição curitibana, que hoje é responsável pela guarda e conservação de Tothmea. Os custos são arcados pelo próprio museu e pela instituição mantenedora, não há recursos vindos de mecanismos federais, estaduais ou municipais envolvidos. "Não recebemos dinheiro público", explica ela. 

Lei dos monumentos arqueológicos

Sobre a legalidade da tutela de Tothmea, a historiadora aponta que a Lei brasileira nº 3.924/1961, estabelece o governo do Brasil como proprietário dos itens arqueológicos e pré-históricos brasileiros, e os museus públicos têm direitos de guarda, pesquisa e divulgação. A múmia, no caso, não se enquadra na legislação. “Não cabem artefatos de outra cultura [na lei], ou corpos mumificados como o da Tothmea", diz ela. 

O arqueólogo e doutor em História Antiga e Medieval Moacir Elias Santos confirma que a lei não se aplica neste caso. Ele é um pesquisador externo, não faz parte do quadro de funcionários do Museu Egípcio e Rosacruz, e está à frente do “Projeto Tothmea” – dedicado a mapear a história da múmia que atualmente é a única de corpo inteiro no Brasil. “Nós tínhamos a coleção do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, que era a maior coleção egípcia da América Latina. Infelizmente, devido ao incêndio do museu [em 2018], grande parte do acervo foi destruído. Então, as múmias que existiam na instituição, que eram seis, quatro adultos e duas crianças, cinco cabeças de múmia, três pés, cinco dedos de mão, sem falar nas múmias de gato, de crocodilo, de íbis, de peixe, foram todas destruídas no incêndio”, esclarece ele. 

Acesso para a ciência 

A pesquisa de Elias Santos recupera a história dessa egípcia antiga, desde aspectos de sua vida com estudos do próprio corpo, da preparação para a vida além-túmulo com análises de mumificação, e a trajetória, de sua saída do Egito para os Estados Unidos, onde passou mais de 100 anos, até sua transferência para o Brasil, em 1995. O mapeamento da história de Tothmea é um dos pontos que a tornam ainda mais especial, conforme conta o arqueólogo: “E é isso que a torna tão interessante, porque poucas múmias são tão bem documentadas quanto ela.” Na exposição que fica em cartaz até 4 de maio, boa parte das evidências dessa história podem ser conferidas, como fotos descobertas recentemente, das décadas de 1970 e 1980, e registros que comprovam que o corpo mumificado da mulher, foi um presente do khediva Mohamed Pasha Tewfik para o secretário do governo americano Samuel Sullivan Cox, em 1885; e posteriormente adquirida e doada de maneira legítima para o Museu Rosacruz, em Curitiba. A chegada em Curitiba também foi acompanhada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A historiadora do Museu, Tedardi, esclarece que a instituição não restringe o acesso à múmia para estudos de pesquisadores. O professor cita como exemplos disso dois casos. “O Cícero Moraes, um designer 3D que trabalha com aproximações faciais forenses, nos procurou porque visitou o museu e verificou a possibilidade de fazer um estudo com a múmia. Então fizemos esse estudo em conjunto; outro pesquisador que procurou o museu também fez um estudo de microbiologia. Se as pessoas têm interesse em conhecer mais sobre ela e saber sobre esses estudos, podem nos procurar ou no museu ou diretamente", explica ele. 

Repatriação de itens e coleções sensíveis 

Entre outros fatores, como a saída de Tothmea do Egito não foi ilegal, ela não é objeto das campanhas de devolução de artefatos ou itens de coleções sensíveis, como vestígios humanos, para o país de origem. “Quando a gente pensa na Tothmea, ela saiu na segunda metade do século XIX, durante o período em que os presentes diplomáticos eram comuns. Basta a gente lembrar do imperador Dom Pedro II, ele também ganhou uma múmia de presente com o seu ataúde", comenta Elias Santos.   

Programação - 30 anos da chegada de Tothmea Museu Egípcio e Rosacruz

12/04 – Abertura da mostra temporária “Trajetórias de Tothmea”.

A exposição reúne cerca de 20 peças entre documentos, objetos e fotografias inéditas, que reconstituem o caminho percorrido pela múmia desde sua descoberta até sua chegada ao Museu Egípcio e Rosacruz. A mostra estará localizada na antecâmara da múmia, ao lado da exposição de longa duração Medw Netjer: palavras divinas, e ficará aberta até 04 de maio.

Museu Egípcio e Rosacruz Tutankhamon – Curitiba/PR (Rua Nicarágua, 2453 - Bacacheri - 82515-260 - Curitiba, Paraná). 

12/04 - 15h – Palestra “Trinta Anos de Tothmea no Museu Egípcio”.

Ministrada pelo Prof. Dr. Moacir Elias Santos, arqueólogo e historiador, coordenador do Projeto Tothmea, a palestra traz descobertas recentes sobre a múmia e seu legado. São 80 vagas, com inscrições gratuitas antecipadas pela plataforma Sympla. (Até a publicação deste texto, restavam ingressos disponíveis.) 

Local: Sala de cursos no 3º andar do prédio do Museu Tutankhamon - Ordem Rosacruz, AMORC.

 12/04 - 16h – Lançamento do minidocumentário “Trajetórias de Tothmea”.

Curta-metragem apresenta um olhar aprofundado sobre a história de Tothmea, pesquisas e sua relevância para a arqueologia e museologia.

Outras informações aqui.

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

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