Um problema doteatro, ao menos na relação com o público, é apelar para um dialeto próprio queparece complicar (ou “complexificar”) o que não precisava ser complicado. Àsvezes, no teatro, as coisas não simplesmente existem no mundo, elas são“presentificadas no coletivo”; as coisas não são estranhas, elas são“heteróclitas”; as coisas não são nem coisas, mas “reverberações”, “corporificações”e “codificações”.
Imagino que umaparte do público com disposição para ir ao teatro quer só ver uma boa peça, comuma história que funcione e um elenco competente. É uma parte que não estáparticularmente interessada em discussões cerebrais sobre a linguagem teatral,mas que gosta de teatro o suficiente para não querer ignorar o Festival deCuritiba (FTC), um dos três eventos culturais mais importantes da cidade – aBienal Internacional, de artes visuais, e o Olhar de Cinema são os outros dois.
A lista a seguirtem apenas 3 títulos pinçados entre as 25 opções da Mostra 2020, parte daprogramação do FTC. São textos importantes adaptados por alguns dos principaistalentos do teatro brasileiro. É uma lista parcial e pessoal de peças que eugostaria de ver neste ano e que representam três experiências possíveis naplateia de um teatro.
Uma experiência íntima
“Quarto 19”
Direção deLeonardo Moreira. Elenco: Amanda Lyra.
Quando: 30 e 31 demarço, às 21h, no Sesc da Esquina.
O monólogo é uma das modalidades mais incríveis do teatro. E talvez a mais corajosa. Trata-se de um ator sozinho no palco falando com o público ou consigo mesmo. Esse formato elementar pode criar a ilusão de ser simples – afinal, é só uma pessoa falando sozinha –, mas deve ser o equivalente teatral a caminhar sobre uma corda bamba sem rede de segurança: tudo depende só de você.
No caso de “Quarto 19”, é uma atriz que está sozinha no palco: Amanda Lyra. Além de interpretar, ela traduziu e adaptou o texto original, um conto da escritora britânica Doris Lessing, vencedora do Nobel de Literatura em 2007. Na peça, uma mulher com uma vida que parecia perfeita entra em crise depois que seus filhos começam a frequentar a escola. Ela acreditava que ter mais tempo seria libertador, mas ela parece se ressentir cada vez mais das obrigações do lar. Para ganhar perspectiva da situação, ela decide alugar um quarto de hotel, que dá nome à peça. Tenha em mente que a história de Lessing foi publicada nos anos 1960. E a interpretação de Amanda Lyra foi muito, muito elogiada.
Uma experiência física
“Angels inAmerica”
Direção de Paulode Moraes. Elenco: Felipe Bustamante, Jopa Moraes, Lisa Eiras, Marcos Martins,Patrícia Selonk, Ricardo Martins, Sérgio Machado e Zéza.
Quando: 31 demarço e 1º de abril, às 19h (Parte 1) e 22h (Parte 2), no Guairinha.
Quando escrevo experiênciafísica, não falo apenas do desgaste dos atores (que deve ser grande), mas sim àresistência do público. É preciso algum preparo para encarar as cinco horas deduração da peça “Angels in America”. De acordo com as informações do guia dofestival, a primeira parte tem 2h20 e a segunda, 2h40, com 40 minutos deintervalo entre uma e outra. A montagem começa então às 19h e termina perto da1h da manhã.
A duração longatambém pode influenciar a maneira como você vê uma peça. Depois de cinco horasconvivendo com uma história e com um elenco, depois da experiência física deacompanhar um enredo que trata de um tema difícil – o estrago causado pela AIDSna Nova York dos anos 1980 – arrisco dizer que você vai lembrar dessaexperiência por muito tempo (gostando ou não dela).
O texto de TonyKushner se tornou uma referência importante no teatro americano recente e foi transformadoem série pela HBO em 2003, com Meryl Streep e Al Pacino no elenco. Como explicaa sinopse da montagem produzida pelo Armazém Companhia de Teatro, é uma espéciede “épico” sobre política, religião e sexo.
Uma experiência divertida
“Auto daCompadecida”
Direção de GabrielVillela. Elenco: Leonardo Rocha e Hugo da Silva.
Quando: 28 demarço, às 21h; e 29 de março, às 19h, no Teatro da Reitoria.
“Auto daCompadecida”, o texto de Ariano Suassuna (1927-2014), é um clássico brasileiro.Você deve conhecer ou ter ouvido falar da adaptação que a Rede Globo fez comMatheus Nachtergaele, Selton Mello e Fernanda Montenegro. A minissérie exibida natevê em 1999 teve um sucesso tão grande que, no ano seguinte, foi transformadaem filme para estrear no cinema.
Nesta montagem, LeonardoRocha interpreta João Grilo e Hugo da Silva faz Chicó. E o texto veloz e engraçadode Suassuna serve de base para uma sátira que faz críticas ao Brasil atual (aomenos foi esse um dos comentários suscitados pela peça depois de estrear em SãoPaulo, no ano passado).
Por ser uma peça dirigidapor Gabriel Villela, sugiro que você preste atenção em tudo: figurinos, cenáriose na forma como os atores se comportam no palco. Anos atrás, em outro festival,vi uma montagem que Villela fez de um texto de Bertold Brecht e nunca mais esqueci.Foi como entrar em uma realidade paralela. E saí dela entendendo um poucomelhor o que o teatro é capaz de fazer.