Quando eu tinha dez anos, meu pai capturou um periquitinho amarelo que apareceu cantando em nosso quintal. Eu tinha acabado de chegar da escola e meu pai tinha acabado de chegar do trabalho. Tomávamos café (sem dizer palavra, como sempre), quando súbito, quebrando o silêncio já à época quase intransponível (“Isso aí é periquito”, disse o pai) ouvimos o trinado alto e melódico vindo da copa de uma das árvores, o mesmo som alegre e bonito que me acompanharia e me animaria durante parte da infância e que nunca mais deixaria de reverberar, de repercutir, de ricochetear nas câmaras de ressonância do meu peito. O som que hoje ainda ouço, ecos bailarinos.
Meu pai era hábil caçador de passarinhos. Quando eu era ainda mais criança, cinco ou seis anos, lembro de ele ter me ensinado a armar arapuca.
Pegue uma peneira, deixe um dos lados suspenso por um pequeno pedaço de madeira, e neste amarre uma cordinha. Embaixo da tenda (edificada tendo em vista a sua queda) coloque um punhado de alpiste ou quirera. Espere, quanto tempo for preciso (são lentos os exercícios dos fundamentos do silêncio). Quando o passarinho, atraído pelo almoço grátis, entrar para comer, aguarde ainda mais um pouquinho, e somente no momento intuitivamente exato puxe a cordinha, com força. Força de menino aprendiz, que aprenderá a hora certa de dar o bote, sorrateiro, felino. Força análoga à da lógica implacável que fará a pesada peneira − quatro madeiras unidas por pregos e malha de metal enferrujado − cair e fechar-se em torno da leveza do pássaro. Festeje.
Que descoberta. Que inéditas sensações convulsionarão o novo corpo, reinaugurado agora como força capaz de modificar o meio. Que espanto presenciar a causa e o efeito sucedendo-se, rigorosos. Que orgulho conceber-se como causa.
A precisão, no entanto, requer treinamento intenso. E pelo menos uma vez, afoito, você puxará a cordinha milésimos de segundo antes do momento exato, fazendo o peso da peneira desmoronar sobre o corpo frágil da ave, esmagando-a. Possivelmente o erro de cálculo trará então em sua esteira um mosto ainda não fermentado de piedade, um fundo desconfortável de lamento pela visão das penas ensanguentadas, a sombra inoportuna de um sentimento ainda não elaborado. Esqueça-os. Remorso aprende-se depois. A prioridade agora é o aprimoramento da técnica. Será indispensável no outro dia voltar a armar a arapuca. E será prazeroso o exercício da caça, excitada a imobilidade do corpo, exultante o silêncio da espera.
Tínhamos uma gaiola vazia em casa. E quando meu pai verificou que o trinado soando alto era mesmo de um periquito, amarelinho claro com tons esbranquiçados (amarelácteo), destacando-se no fundo verde da copa frondosa (fruta madura), improvisou um suporte com a madeira do varal, amarrou-a à gaiola, pôs dentro pedaços de banana e alçou-a até a copa. Esperou. Esperamos. O bichinho estava ressabiado, mas o cheiro bom da banana era irresistível e ele foi se acercando aos poucos, cauteloso. Quando por fim o Rico (antes da descida eu o havia nomeado) já se encontrava bem alojado dentro da pequena jaula, feliz saboreando a coisa oferta, meu pai foi descendo-a bem devagar, sem nenhum movimento brusco, até pousá-la delicadamente no chão e fechar a portinhola para sempre.
Rico era um passarinho cantor, exaustivamente cantor. Quando o dia estava bonito e púnhamos a gaiola ao sol, cantava tão alto e tão estridente que chegava a incomodar vizinhos, que achavam o canto realmente muito bonito mas tenha santa paciência o dia inteiro não dá. O recolhíamos e ele parava um pouco, mas logo voltava à carga. A única solução era estender um pano escuro sobre a gaiola, para fazê-lo pensar que anoitecera. Aí ele parava. Mas eu não queria que ele parasse, porque além de cantor, Rico era também dançarino. Quando eu brincava com ele e solfejava a melodia que inventei “Ri-co, Ri-co, Rico Rico Rico”, ele começava a se mexer, dando passinhos ligeiros de um lado para o outro, e, de quando em quando, graciosos saltitos entre um e outro poleiro, plumoso ginasta das barras assimétricas.
Quando saíamos, deixávamos a gaiola pendurada na parede muito alta atrás de casa, inalcançável aos gatos e um pouco mais distante dos ouvidos vicinais. Até que um dia passaram-se anos e quando cheguei da escola percebi algo errado. Rico não estava cantando como de costume e algumas gradinhas estavam retorcidas. Havia também muitas penas espalhadas pelo chão e pelo assoalho da gaiola, e um dos olhinhos do Rico estava ferido. Descartada a hipótese de um gato tê-lo atacado (nem para um bichano havia meios de escalar parede tão alta), a única que restou foi a de que um gavião, atraído pelo canto, tentou abocanhá-lo, agarrando-se às grades e fazendo o Rico se debater muito, a ponto de se ferir.
Rico sobreviveu ao ataque e viveu mais algum tempo. Traumatizado, porém, pelo susto violento, e instintivamente associando seu canto à vinda do predador, nunca mais cantou, nunca mais dançou, nunca mais fez as acrobacias de ginasta. Viveu seus últimos dias amuado, acuado num cantinho da gaiola, recusando-se a comer ou comendo muito pouquinho, até a manhã em que o encontramos tombado.
E é essa a história do periquito Rico.
Quando contei, num jantar aqui em casa, essa história a um querido casal de amigos, o Tiago e a Paula, uma palavra, desde os dez anos presa em minha garganta (e é por causa dessa palavra-gatilho que escrevo esta crônica), soou tão triste que, por um inusitado efeito reverso, acabou gerando as maiores gargalhadas da noite, daquelas de doer a garganta e fazer lacrimejar, efeito do humor involuntário aliado ao vinho e à consternação.
Ao Tiago e à Paula, passarinheiros, dedico esta crônica, porque nunca mais, depois do Rico, encarcerei um passarinho dentro de uma gaiola. Foi o último canto que, por minha causa, “emudeceu”.