Parece que algumas embalagens agora estão vindo com informações elucidativas que visam proteger os consumidores de serem enganados pelas próprias embalagens. No rótulo de um transparentíssimo vidro de ovo de codorna, por exemplo, li o esclarecimento: atenção alérgicos, contém ovos. Já numa caixa de leite de uma marca específica, fiquei sabendo que aquele produto era uma excelente fonte de cálcio. Um asterisco ao lado da palavra “cálcio’’, no entanto, direcionou obliquamente meus olhos para as letras miúdas localizadas num recanto logo abaixo, em que aparecia o esclarecimento: *assim como todo leite.
E assim, no universal movimento corporal dos desconfiados − o olhar de canto − desfez-se de imediato a ideia de que aquela marca específica podia me conferir um benefício que as outras não podiam.
Aliado a essa fundamental característica de ser um inveterado bebedor de leite (mamífero que sou), está o fato de às vezes eu também me deliciar comendo sardinhas (não juntos os dois, claro fique, que seria perturbador). Nestes tempos de pressa, comida pronta e saudável à distância de um armário e de um abridor é sempre muito bem-vinda. O único elemento nessa história que se poderia chamar de estranho é que garfeio os peixinhos sem retirá-los da lata, in latura, ali no cocho mesmo. Mas só o faço depois de ler as importantes informações fornecidas pelos fabricantes, ultimamente tão preocupados em sanar as dúvidas que sempre surgem antes de pormos algo na boca. Essa lata me informava que o produto contém Ômega 3.
Eu, que pensava que o Alfa e o Ômega eram um só, fiquei espantado ao saber que já haviam criado o terceiro. E só abandonei os desdobramentos lógicos de tal divagação quando avistei o asterisco.
Pensei: Lá vem!
Asteriscos têm se revelado um perigo. Imaginei que uma dessas recorrentes artimanhas contratuais me surpreenderiam e me avisariam que eu só poderia usufruir dos benefícios do óleo milagroso caso fizesse uma assinatura de dois anos de exclusividade com a marca, e que, caso me arrependesse 43 dias ou 27 horas depois, teria de pagar uma multa rescisória cara o suficiente para que os préstimos e a proteção já proporcionados a mim pelo peixe fossem inferiores ao preço pago pela desistência.
Mas nesse caso não era um asterisco dessa estirpe. Assim como na caixa de leite, ele apenas revelava uma informação que punha aquela sardinha em pé de igualdade com todas as outras sardinhas do mundo: contém Ômega 3*… E logo abaixo: *como todo produto desta natureza.
E foi aí que meu cérebro se contorceu de vez. O movimento oblíquo de olhos dissimulados deu lugar à mais completa estupefação e à consequente dilatação das pupilas. Arregalei, estufei, esbugalhei os olhos, diga-se de uma vez.
Desta natureza? Qual natureza? A natureza de vir em latas? Também há milho enlatado e, acionando meus parcos conhecimentos alimentício-nutricionais, sei bem que milho não contém Ômega3. Natureza de ser aquático? Cavalos marinhos, algas e submarinos também são. Natureza de ter dois olhos laterais? Zebras também os têm assim. Natureza de ter escamas? Cobras as ostentam e nem por isso as enlatamos para consumir seu óleo. Natureza de ter óleo? O horripilante grão de soja e os leões marinhos também têm. A natureza de não ser bípede? De não ter braços? De não ser hábil a ponto de escapar de redes? De ser pecilotérmico? Qual raios enfim é a natureza de uma sardinha?
Somente alguém muito sem juízo levaria a sério as perguntas acima. Ou alguém que as fizesse já com a intenção prévia de refutá-las depois. Ou alguém que quisesse fazer graça. Ou alguém chato mesmo. Porque nelas claramente há um universo paralelo e inóspito de interpretações que simplesmente nós não visitamos, efeitos colaterais da nossa capacidade de raciocinar que descartamos por não levarem a lugar nenhum, um ponto morto que funde o motor sem fazer o carro sair do lugar.
Quando o contexto em que uma palavra se insere é conhecido, somos muito certeiros e apostamos nossas melhores fichas em seu sentido reconhecidamente mais plausível. Mais ainda quando presumimos que o interlocutor não deseja ser ambíguo, ou engraçado, ou chato. Otimizamos as escolhas. Se digo à menina que ela é uma flor, seleciono o perfume, a delicadeza e a beleza como os aspectos comparativos mais relevantes, e não o fato de as flores serem meio paradas, serem espinhosas, de serem feias a maior parte do tempo e só florescerem de vez em quando, de morrerem na flor da idade, de se reproduzirem com ajuda de abelhas etc.
Seria um mundo insuportavelmente palavroso se todas as etapas que levam à compreensão tivessem de ser explicitadas. Caleidoscopicamente perverso se todos os potenciais sentidos de todas as palavras e sentenças tivessem de ser levados em consideração. Embora seja essa a postura mais sensata a se tomar antes de assinar um contrato ou ao ler um poema, não é isso o que fazemos na maior parte do tempo. Não precisa. Sabemos que o outro sabe que nós sabemos que o outro sabe o que está sendo dito. Na imensa maioria das vezes, uma rosa é uma rosa. Mesmo. E quando digo que mãe é mãe não preciso pedir desculpas por ter dito uma frase circular, porque todos sabem que não é.
A natureza inequívoca de uma sardinha é ela ser uma sardinha e não outra coisa. E isso inclui toda a população de sardinhas de todos os mares, de todas as redes e de todas as latas. Quem diz isso sou eu, claro, ser falante. O que a pobre sardinha rica em ômega 3 diria de sua própria natureza caso pudesse pensar e falar foge completamente de minha alçada. Mas aposto que elas se compreenderiam, como todo produto desta natureza. Natureza de linguagem.