Pular para o conteúdo

Aquelas coisinhas intrincadas que as pessoas fazem

Por Admin
Aquelas coisinhas intrincadas que as pessoas fazem
Publicado:

Elas tentarão te convencer de que tudo ali é feito com muito rigor e muito método e segundo os padrões mais rigorosos e verificáveis do fazer científico. Mas será pura doidice, alucinação, demência. Elas te prenderão num calabouço conceitual particular tão inchado de sinuosidades, tão abarrotado de meandros, tão multiplicado por asteriscos, letras miúdas e subitens que os labirintos onde os personagens kafkianos se debatem feito baratas tontas parecerão uma linha reta. E não haverá novelo nem Ariadne para dar um jeito no enrosco e te mostrar a saída. Você estará irremediavelmente perdido.

Uma delas chegará em você e dirá que o arroz é que precisa ir por baixo do feijão, porque assim o arroz fará as vezes de uma caminha-base aconchegante e absorvente para onde o caldo do feijão escorrerá, tornando ambos, pela ação da gravidade fazendo o caldo imiscuir-se entre os grãos de arroz, ainda mais saborosos. Outra chegará em você e dirá que o feijão é que precisa ir por baixo do arroz, para que assim o arroz mantenha-se íntegro, para que assim o caldo do feijão mantenha-se líquido e para que assim o arroz faça as vezes de uma caminha-base aconchegante que acomodará de forma otimizada o ovo frito por cima. Perdida essa etapa (pois que vencida não é nunca), a seita do arroz por cima se bipartirá, brandindo cada uma das recém-inauguradas facções variados argumentos a respeito da dureza ou da crueza da gema.

Esse fenômeno da bipartição, levado às últimas consequências, certamente originou o cancioneiro psicológico no qual se destacam frases como “às vezes é preciso lutar contra você mesmo”, “não seja você mesmo o seu maior inimigo”, “não se boicote” e assim por diante até a automutilação dos tímpanos.

Outro dia, numa rede social, vi Alguém reclamando de um Sujeito que curtiu uma postagem na qual o Postador, muito triste, anunciava que o pai estava à beira da morte, encamado num hospital. O Alguém alegava que aquela atitude do Sujeito era uma deselegância, uma inconveniência social, um descumprimento das etiquetas virtuais mais elementares e amplamente compartilhadas entre os usuários, além de parecer uma ironia sádica. ¿Onde é que já se viu curtir uma notícia dessas?

¿Pois não é que o Sujeito, ignorando solenemente o sentido maciçamente aceito da palavra naquele contexto, se defendeu com uma carteirada etimológica afirmando que o verbo “curtir” significa, também, padecer, sofrer e suportar? Pois é, foi exatamente isso que o Sujeito fez. E não parou por aí: depois de jogar na mesa o truque do verbo “curtir”, como se fosse um valioso coringa e não um blefe com o quatro de ouros (os facãozeiros do truco entenderão), ainda veio com a cartada etimológica (se é que posso chamar assim) do gesto do polegar pra cima: alegou que no Império Romano o polegar pra cima era um sinal feito pelos imperadores nas arenas de gladiadores e que indicava (indicar é com o indicador né, mas tudo bem) que a vida do guerreiro seria benevolamente poupada. Clicar no botão “curtir”, então, segundo a lógica despropositada do Sujeito inconveniente, significava sofrer junto as penas com o quase enlutado, além de ser uma manifestação do desejo de que a morte não acontecesse, ainda que o auspicioso veto imperial, como se supõe, não estivesse ao alcance de seu polegar virtual.

Obviamente ninguém curtiu esse comentário estonteante, mas não importou muito. O Sujeito mandou o Alguém consultar um dicionário e ainda deixou, como em saída triunfal, expostos estes versos de Machado: “Ao calor enxugou de estranhos lares/ O lusitano vate. Acerbas penas/ Curtiu naquelas regiões…”

São essas as coisinhas que nomeio de “aquelas coisinhas intrincadas que as pessoas fazem”. Para conseguir ficar por cima ou evitar ficar por baixo (mesmos objetivos de vida do feijão e do arroz), até as palavras saem dos dedos ou da boca com significados arbitrários, idiossincráticos, aleatórios.

Parece que em tudo a referência tem de ser o maldito “eu”. Não chove aqui onde eu estou agora. Em algum lugar, a 20 km de distância, está chovendo. Me desloco até lá, sem saber que lá chove, sem saber das nuvens escuras e da pista molhada. Me aproximo de lá, penetro na chuva que há horas despenca desatada. Promulgo a sentença: ¡Começou a chover!

A referência é sempre o maldito EU. Assim mesmo, intrincado desse jeito, mas assim.
Não sei se repararam, mas o exemplo acima é uma dessas coisinhas intrincadas que, confesso, pratico repetidas vezes: explicar um conceito fazendo exatamente aquilo que o conceito tenta esclarecer. Pessoas de bem sabem que todos os nossos discursos estão tão impregnados de falácias, de argumentos logicamente inconsistentes incapazes de provar eficazmente a alegação, que até já perdemos a capacidade de reconhecê-las. Acredite em mim, sou professor, mais velho que você, tive muitos problemas na minha vida e, além disso, ninguém até hoje conseguiu provar que a informação é falsa, com o reforço de que pesquisas feitas na Universidade de Yogyaharta, pelo eminente Departamento de Estatísticas daquela instituição, presidido pelo notável Kulon Lintang, demonstraram claramente a total e absoluta veracidade da afirmação, seu idiota.

Há pessoas que não entenderiam uma ironia mesmo se estivessem lendo uma exatamente agora, mas quem é leitor de verdade e manja dos paranauês, entendeu, e, se não entendeu, não é um verdadeiro escocês.

¿Intrincado, né?

Mas há maçarocas piores. Tem gente que mata suas cinco avós para justificar faltas no trabalho, aproveitando-se do fato de que todos gostam de suas próprias avós e de que todos se solidarizam quando alguém as perde. Já que ninguém levantaria a terrível hipótese de uma pessoa mentir sobre a morte da avó apenas para faltar ao trabalho, então a pessoa mente sobre a morte da avó para faltar ao trabalho. E mesmo que ela desconfie de que há quem desconfie desse seu método, conclui que ninguém a acusaria de mentir sobre a morte da avó. ¡Vai que é verdade! Então como ninguém tem coragem de verbalizar a desconfiança quando pensa na hipótese de a pessoa estar mentindo sobre isso para faltar ao trabalho, a pessoa mente sobre isso para faltar ao trabalho, num jogo mental maquiavélico, labiríntico e, desconfio, prazeroso.

É claro que nem só de doidice, alucinação e demência vivem os complexos enredamentos urdidos por gente. Às vezes realmente tudo é feito com muito rigor e muito método e segundo os padrões mais rigorosos e verificáveis do fazer científico. O matemático Duncan Watts, à guisa de amostra, concebeu um experimento lindamente ardiloso: criou duas versões de um site de downloads de músicas completamente desconhecidas. No primeiro site, os internautas não podiam ver quantas vezes determinada música tinha sido baixada; no segundo, era possível. (E com o detalhe imprescindível de que os números eram deliberadamente falsos). O resultado foi que uma maior variedade de títulos era baixada no primeiro site, enquanto que somente as músicas mais populares eram baixadas no segundo. Ou seja, as músicas se tornavam cada vez mais populares porque eram mais baixadas, e eram cada vez mais baixadas porque eram cada vez mais populares. O resultado do experimento foi esse círculo vicioso que se instaurou ter trazido à luz um comportamento muito nosso e que qualquer idiota pode ver. Só precisamos agora desse idiota para nos dizer qual comportamento é esse.

A esses extremos de ardil chega o cérebro humano. E entonteço só de imaginar o quanto ainda poderia escrever caso me propusesse a tarefa de mapear incansavelmente todos os exemplos dessas coisinhas intrincadas que as pessoas fazem. Mas eu canso. E, além disso, uma crônica tem lá os seus limites espaciais que não podem ser ultrapassados.

Encerro-a aqui, portanto. Mas não sem antes deixar uma citação saborosíssima (e também espetacularmente intrincada) do biólogo, zoólogo e antropólogo Lyall Watson, sobre esse nosso maravilhoso instrumento de trabalho e fraude: “Se o cérebro humano fosse tão simples a ponto de conseguirmos entendê-lo, seríamos tão estúpidos que não conseguiríamos entendê-lo.”

Mais de Admin

Ver todos

De nossos parceiros