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Can Xue: perfomance, escatologia e ruído agudo

Caso você tenha curiosidade em ler Can Xue, comece por Nuvens Flutuantes

Can Xue: perfomance, escatologia e ruído agudo
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Antes de começar um livro de Can Xue, eu sugiro, ou melhor, eu peço que você escute alguma composição da musicista Chaya Czernowin. Se você conhece música erudita, saberá que ela não é uma compositora, digamos, popular. Se você já está acostumado à música contemporânea “estranha”, mesmo assim pode se surpreender. Czernowin lida com sonoridades agudas, desconfortáveis. Seus violinos soam como arranhões de animal e mesmo a sonoridade dos sopros remeterá a algo da natureza “como ela é”.

Chaya Czernowin foi quem Can Xue ouviu e que a fez escrever algo que lembrasse a composição da compositora israelense: algo estranho, incômodo, “natural”, repetitivo, quase irritante, como seria o som de um verme a corroer madeira. Eu diria irritante mesmo. Czernowin dá um trabalhão para o maestro e faz sofrerem os músicos...

Mas essa música contemporânea estranha e particularmente irritante – ou ostensivamente agressiva, por se opor abertamente ao que se convencionou chamar “erudito” ou, na maioria das vezes de modo equivocado, “clássico” – não é a única referência citada pela própria Can Xue. A autora chinesa já comentou mais de uma vez que sua literatura é como uma performance. Não é pouco: a performance, cada vez mais comum no cenário da arte contemporânea, causa estranhamento, causa susto, é provocativa, leva a considerações como “isso é arte?”, e também leva a memes engraçados, tenho de admitir.  Pode ser muito natural ou convidativa a um certo número de artistas, críticos, curadores e donos de galerisa mundo afora, acostumados a esse tipo, a essa classe, a esse modo de questionar as coisas no mundo das artes plásticas. Pode se algo entre a dança e o teatro, pode ser uma instalação com um sujeito parado, pode ser tanta coisa, mas algo é comum: não é uma pintura, ou escultura, ou gravura, etc., ou seja, aquilo que se convencionou, durante uma boa parte da nossa História, “arte”.

A literatura de Can Xue, então, é isso: uma mescla de “coisas”, como a música estranha de Chaya Czernowin e a performance contemporânea. Ao menos no plano da escrita.

Literariamente, a própria Can Xue cita os autores que ela admira: Kafka, Borges, Calvino. Por aí, você pode ter uma ideia do que ela gosta de fazer. Bem; admirar um escritor não quer dizer imitá-lo. Mas se você gosta de pistas, eis as pistas que trago para você, da própria fonte.

Bem; o chinês, sabemos, é uma das línguas mais faladas no mundo. Mas, digamos, é uma língua concentrada num país (sim, continental). Por mais que haja grupos de imigrantes chineses em várias partes do planeta, o chinês não é exatamente uma língua franca ou uma língua de comércio, como o inglês. Os motivos são variados – e não cabe aqui uma apresentação muito extensa disso. Ao mesmo tempo, o chinês falado por diferentes comunidades ao redor do mundo não é o mesmo; em verdade, por vezes, nem chinês é, e sim cantonês ou outra coisa da mesma família, um grupo chamado sino-tibetano. Mas há falantes de chinês espalhados pelo mundo, falando variações de chinês, digo, de mandarim. Esses falares são distintos: já se distanciaram do chinês da China e/ou são variações, de uma língua bastante antiga, usada por mais de um bilhão de pessoas – e por isso diversa. Nem entrarei no mérito da escrita...

Mas vamos dizer que existe um chinês, ou um mandarim. Para facilitar, vamos dizer que há um chinês padrão, falado e escrito, com muitas questões, menos ou mais complexas que as do português ou de uma variação do maia antigo. É nesse chinês padrão que escreve Can Xue. É esse chinês que ela usa em entrevistas e em textos escritos para a mídia. Mas os tradutores que lutem: embora ela escreva no padrão, sua linguagem é bastante específica – e dá um trabalho enorme para os tradutores. Algo muito comum na escrita dela é o uso de nomes de animais e plantas, algo que não é muito presente nos cursos de idiomas que fazemos. Ou seja, o vocabulário de Can Xue é mais difícil que a estrutura gramatical que ela usa – e ela não usa isso à toa, claro, pois a grande quantidade de animais, plantas, objetos que ela traz para sua escrita tem um alto valor simbólico. Já falo melhor disso.

Isso explica, embora apenas em parte, por que Can Xue não é traduzida, ainda, no Brasil. Embora haja inúmeros falantes de chinês no país – de diferentes localidades da China, de Taiwan e de Hong Kong, o chinês não é exatamente uma língua muito estudada por aqui – e mesmo universidades famosas pela diversidade de línguas estudadas nos cursos de Letras é bem difícil encontrar chinês. E olha que deveria: com o crescimento cada vez maior do poder chinês no mundo, já passou da hora de haver mais estudantes de chinês no Brasil. Haveria mil coisas para falar sobre isso, mas tentarei conduzir para a autora em questão.

(Outra situação é encontrar um sujeito que possa traduzir literatura, ou seja, não se trata de encontrar alguém que traduza, simplesmente, o chinês, como é o caso do chinês usado comercialmente.)

Can Xue é uma autora chinesa, que escreve em chinês. Você encontrará muitas obras dela em inglês, em espanhol, principalmente. Em português, por ora, somente em Portugal, em particular, O amor no novo milénio, um de seus trabalhos mais conhecidos fora do círculo de leitores de chinês.

Susan Sontag, sempre antenada com autores incríveis e pouco conhecidos do grande mercado (Danilo Kiš, Leonid Tsípkin, e até mesmo Bolaño, antes de ser mundialmente famoso, entre tantos outros que ela ia buscar em qualquer lugar e língua que pudesse ler), há vinte anos já tinha apresentado a grandeza de Can Xue. Mas, mesmo assim, com esse apoio de peso, a autora demorou a ganhar traduções no Ocidente. Os grandes prêmios ocidentais foram dados a escritores chineses, mas de expressão em outro idioma, caso de Gao Xingjian (conhecido no Brasil pelo bonito A montanha da alma, escrito em francês), ou a escritores mais “palatáveis” que Can Xue, como é o caso de Mo Yan, escritor da geração dela, e com certas semelhanças no tocante às criticas ao regime chinês, conhecido no Brasil pelo para lá de interessante As rãs.

Eu falei em tradução e na dificuldade de traduzir do chinês, por “n” fatores, mas o mercado brasileiro é mais aberto a autores como Cixin Liu, autor de “O problema dos três corpos”: é uma boa ficção científica, chamada “hard”, vende bastante e gera boas séries (se for ver, prefira a adaptação chinesa, muito mais interessante e fiel). O mercado sendo mercado. É isso.

Caso você tenha curiosidade em ler Can Xue, comece por Nuvens Flutuantes (ainda sem título no Brasil). A primeira pergunta que o leitor se fará é se está lendo um tipo de “realismo mágico”, mas um realismo mágico com um algo de diferente, estranho e provocador, áspero e inquietante.

Primeiramente, o leitor verá ali um exagero, o que o fará pensar se está lendo uma adaptação do naturalismo brasileiro ou alguma versão do expressionismo. As pessoas são animalescas mesmo, são comparadas a animais, têm partes do corpo que lembram animais, e os sujeitos se tratam como animais. A escatologia é escarrapachada, sem receio de escândalo. Se as pessoas vivem e se tratam com características próximas às dos animais, então as descrições de fluidos corporais, vômitos, excrescências variadas são comuns. Há uma sujidade universal nesses seres, em suas casas, nas ruas, mas também no seu discurso. Há total falta de respeito, não há privacidade, e a atmosfera é, no geral, de um medo profundo.

Essa atmosfera de medo não é incomum na literatura chinesa contemporânea, em particular a literatura que trata do governo de Mao. Num universo de fome, perseguição, falta de espaço e de poder pessoal, como fica o sujeito? Como fica sua sexualidade e seu desejo? Como fica sua vontade de crescimento? Ou de paz? Não há crescimento, em particular no sentido dado pelo capitalismo a crescimento. Então, resta muito pouco porque a tradição filosófico-religiosa chinesa fica insuficiente para lidar com o horror. É bastante coisa. Não faço uma crítica aqui ao maoísmo – apenas tento descrever a literatura que o critica.

E as relações se tornam perversas, num ambiente de desconfiança, vulgaridade, hostilidade e perseguição.

A narrativa é construída num espaço físico e social que faz o leitor perguntar se nada ocorre, pois o tempo parece congelado. Num mundo sem perspectivas, que diferença faz se o sujeito vai comprar um vegetal na segunda ou na terça? Ele vive, afinal, num labirinto – e num labirinto congelado. Toda essa construção narrativa é, sim, feita para horrorizar. Em particular, essa atmosfera angustiante lembrará o sonho, e o pior dos sonhos, o tantálico, angustiante e sem saídas. O espaço físico é restrito e as personagens são maridos e esposas, sogros e sogras, filhos.

Não poderia deixar de observar que autores como Mo Yan e Can Xue são particularmente admirados e traduzidos pelas editoras europeias. Grandes críticos do sistema chinês comunista – e dos horrores que célebres decisões do governo chinês trouxeram, como a famosa morte dos pardais, que fez a população de insetos crescer vertiginosamente – é mais fácil “entendê-los” do que a outros autores que não vagueiam por esse tipo de crítica. É uma pena porque a China é riquíssima em literatura, há muitos séculos, com uma tradição que é uma das mais antigas do mundo, contínua e rica.

Por fim, eu aconselho que, no caso de você se decidir por ler essa misteriosa e fascinante autora, busque traduções que tragam explicações sobre os usos vocabulares de Can Xue. Geralmente, seus livros são pequenos, mas espetacularmente densos, e o vocabulário remete a situações que passariam despercebidas pelo leitor. Como o chinês é uma língua que permite ambiguidades (ora pela sonoridade, ora pela escrita ideogramática), um bom tradutor pode ajudar bastante, com observações e comentários. Os escritores chineses da geração de Can Xue e Mo Yan abusam dessa possibilidade, com bastante humor, algo também típico da cultura chinesa – e pouco explorado como uma marca cultural, exceto nas séries de luta marcial, o que é uma outra história.

p.s. só para se ter uma ideia do humor chinês, Mo Yan quer dizer “não fale”, “fique quieto”. Seu nome verdadeiro é Guan Moye. Já o nome de Can Xue é Deng Xiaohua. Nem conseguiria transcrever a pronúncia de “Can Xue” aqui. Soa algo como “sán-tchúya”.

p.s.2: há um caractere chinês (fú ou fou) que é usado tanto na palavra “morcego” quanto na palavra “felicidade”. Essa aproximação sonora e de escrita fez com que o morcego na China tivesse uma acepção diferente da nossa acepção. Lógico que, se você estiver num quarto na China e entrar um morcego, a visita não será exatamente “feliz”. Essas ambiguidades são comuns na escrita de Can Xue; então, insisto na ajuda que o tradutor pode trazer.

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