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Conheça o artista por trás dos murais de Curitiba e que pôs Deus na cabeça de Leminski

Gardpam se pendura em andaimes nos prédios mais altos da cidade para criar imagens de Leminski, Helena Kolodi e Nelson Mandela, dentre outros

Conheça o artista por trás dos murais de Curitiba e que pôs Deus na cabeça de Leminski
Gardpam, criando imagens nos prédios da cidade. Foto: Annie Libert
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Filho de pai pedreiro e mãe diarista, Fernando Ferlim, mais conhecido no circuito da arte urbana como GardPam, se destaca pela ousadia: o lugar onde ele mais gosta de estar é nas alturas. Hábito que vem da infância, como uma criança que viveu entre diversos bairros da capital e na periferia que, na ausência dos pais, - sempre fora para o sustento, teve que inventar com o que brincar. “Eu tinha sempre que estar fazendo alguma coisa pra ajudar em casa e fiz tudo brincando. Comecei a inventar fases, como num jogo, e a criar desafios que me faziam subir em árvores, telhados e atravessar terrenos baldios", conta.

A brincadeira nunca mais parou, mas hoje o foco é outro: pintar, grafitar e se expressar através da tinta e do spray. E quem anda pelo centro de Curitiba, tem se acostumado a olhar para o alto e ver figuras como Helena Kolody, Paulo Leminski e Nelson Mandela em grande escala, nas laterais de prédios, nem sempre com autorização ou cumprindo as regras de segurança. 

Foto: Annie Libert

Nas redes sociais, onde GardPam tem mais de 50 mil seguidores e faz questão de destacar que já pintou em 29 países, 4 continentes e em todas as capitais brasileiras, é comum ver vídeos onde ele se pendura em cordas presas a pedras para pintar.

No dia da nossa entrevista, ele chegou a caráter, vestido com equipamentos de segurança, roupas sujas de tinta e spray em mãos. Estava pintando um dos seus primeiros trabalhos comerciais, uma figura em grande escala do Barão do Serro Azul, feito sob encomenda para o prédio da Associação Comercial do Paraná (ACP). 

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Nem sempre a temática é careta e inclui um barão. Também, na grande maioria dos casos, as figuras são escolhidas ao acaso, em pesquisas online. Seus maiores trabalhos, não são sobre seus heróis e vêm sempre acompanhados de mensagens com referência à Deus. Era essa inclusive, uma das coisas que me intrigava, ao lembrar que GardPam colocou a frase “Deus Proverá” sobre a cabeça do poeta Paulo Leminski, o mesmo que escreveu: “Eu ontem tive a impressão / que deus quis falar comigo / não lhe dei ouvidos/ quem sou eu pra falar com deus? / ele que cuide dos seus assuntos / eu cuido dos meus".

Foto: Annie Libert

Como você se lembra de ter começado a prestar atenção em arte urbana e a fazer arte? 

Na infância, minha família saiu de uma cidade pequena no Rio Grande do Sul e veio morar em Curitiba. Quando eu vim para cá, me chamou muito a atenção os stencils, os lambe-lambes, as pichações e os grafites nos muros. A intervenção urbana, no geral, me chamava muito a atenção. Quando eu estava na quarta série, numa escola no Bacacheri, a polícia foi na sala de aula atrás de um dos colegas meus que faziam parte de uma gangue, que era bem bairrista e espalhava pichação pelos bairros e a galera costumava escrever e eu gostava muito de ver e saber todos os nomes, como uma coleção. Agora a minha coleção é para colecionar conquistas. Pintar todas as capitais brasileiras, todos os estados e agora quero fechar todos os países da América Latina. A minha missão máxima é pintar todos os países do mundo.  

Mas e daí quando você começou a pintar ou a pichar? 

Quando eu pensei ‘Chegou a minha vez de fazer. Eu vou parar de colecionar esse conhecimento e vou começar a produzir'. Eu acho que começou quando eu comecei a desenhar, una quinta série eu tinha um colega que era muito bom no desenho. Por causa dele eu comecei a desenhar também. Eu costumava fazer rápido as minhas lições e já ficava com tempo livre e o desenho foi uma saída muito boa para mim. Mas o mais louco é que eu só comecei a pintar na rua e a fazer grafite quando eu tinha 24 anos. Eu já era casado. Já tinha uma filha. Eu cursava Terapia Ocupacional na Universidade Federal e tive uma aula de intervenção urbana com stencil. Aí comecei a fazer uns azulejos e a pôr na rua.  Intensificou quando me mudei de bairro, da Vila Rica para o Campo Alto, em Colombo. Porque eu fazia um som e tinha contato com o pessoal da música, que era também o pessoal que tinha uma crew que fazia grafite e pixação. Eles convidaram a gente e a gente foi, eu e minha esposa. Os primeiros grafite, os primeiros anos a gente pintava junto.

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Isso que eu ia te perguntar, porque GardPam é mistura do seu apelido com o nome da Pamela, sua esposa. Ela também já tinha ou tem esse contato com o grafite? O GardPam é um duo? 

É um duo. Ainda é, porque ele agora no caso é mais do que um nome artístico. Ele é o nosso nome. E a minha ideia ainda é, se possível, mudar para sobrenome Gardepan. Toda a família tem essa ideia. E até as vezes a gente fala os Gardes, com as minhas filhas junto, né?. E ela pinta ainda comigo. Não é com a mesma frequência, mas às vezes ela pinta comigo. Há alguns anos, a gente tinha uma política de não assistir televisão. Então a gente queria atividades. Então o grafite caiu como uma luz. O primeiro grafite foi na lateral da igreja e estavamos eu, ela e a nossa filha, que tinha um ano de idade. 

Você gosta da ideia de estar em 29 países, 4 continentes, todas as capitais brasileiras. Por que existe essa sua vontade de ser onipresente?

Na verdade, eu acho que é mais para poder me diferenciar. Grafiteiros e muralistas têm muitos, mas que realizaram feitos, são poucos. Eu quero ter alguma coisa para ser lembrada. E, como eu falei antes, que é uma das minhas brincadeiras favoritas é criar um jogo para passar de fase, isso caiu como uma luva. Sinto que às vezes, a gente tem altos e baixos como artista. Tem vezes que dá vontade de morrer, de nunca mais pintar, de trabalhar, não querer ter nascido. E quando chega nessa fossa, tem que ter alguma coisa para sustentar. Eu tento criar um método de que eu não desanime, que eu não seja controlado por um sistema, por uma prefeitura, por um político, por nada. Que eu possa ser um artista livre. Que eu possa fazer o que eu quiser. 

Por que você tem essa necessidade de ser lembrado?

Eu acho que é o ego falando alto, aquele medo de morrer, medo de passar pela terra e não ter feito muita coisa e só ser mais alguém. Acho que já vem no espírito de nascença: desde criança meus pais falavam que chegava uma visita em casa e só faltava pôr uma balancinha no pescoço. Aquela pessoa que faz coisas estranhas no meio da galera para ganhar atenção. Eu acho que sempre fui assim, porque eu tive pouca atenção quando era criança. Então, eu acredito que tenho um pouco a ver com isso. Eu quero escrever meu nome na história. 

Falando agora do seu estilo, você faz várias coisas. Cartoon, caricatura, um pouco de lettering, realismo. Por que você optou por fazer estilos tão diferentes e ser vários artistas dentro de um só?

Acho que eu não gosto da mesmice e de que alguém possa me definir. Talvez tenha medo disso, de ter um rótulo. Eu acho que é quase como uma máscara, uma possibilidade de se esconder dentro do que eu mesmo sou. Prefiro ser imprevisível e poder me encaixar em qualquer coisa, pintar com qualquer pessoa, me adequar a qualquer estilo e a qualquer ambiente. Por exemplo, eu não vou deixar de pintar com alguém, porque o estilo da pessoa é diferente. Eu vou tentar me adequar aquilo pra fazer algo que vai combinar com ela. Eu não vou deixar de pintar numa parede porque a parede é um bloco de gelo. Eu vou ver o que material vai servir pra aquele bloco de gelo e vou tentar fazer alguma coisa lá. 

Você cursou Terapia Ocupacional. Como isso influencia sua arte?

Eu não cheguei a me formar. Eu comecei a fazer o curso com 18 anos e na época, consegui uma vaga na Casa do Estudante Universitário, no centro de Curitiba, porque eu era de Colombo. Cursei dois anos, porque foi um período difícil, onde tive depressão e problemas com drogas. Eu trabalhava na noite de barman e de garçom e levava uma vida ruim. Mas, eu aprendi muito no curso e isso faz muita diferença na minha vida hoje, porque tive aulas de anatomia, interpretação do que o posicionamento corporal fala, interpretação de cores. Mas o maior ensinamento foi que não existem pessoas que não tenham dificuldades na vida e tudo pode ser tratado. E aí volto a repetir que a arte faz diferença em tudo isso: o que eu consigo transmitir com a minha arte e como ela pode interferir na vida de alguém. Isso é um poder de transformação gigantesco.

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Agora, falando do Leminski, da Helena Kolody, do Poty Lazzarotto e do Nelson Mandela: como é que você escolhe esses personagens? Eles são os seus ídolos? 

Eles não são meus ídolos, eu não tenho um ídolo. A ideia começou, porque fiz um projeto onde eu tentei uma verba pública pela prefeitura, um edital. Eu não passei e não gosto de perder na vida, de ser reprovado, de receber um não. Então, às vezes sou apelativo para poder conseguir um sim e pensei que se eu fizesse personagens meus, muita gente poderia não gostar. Eu considerei que precisava fazer alguma coisa que fosse um bem comum e que todo mundo gostasse. Que fosse o mínimo detestável. Cheguei à conclusão de fazer grandes paranaenses e fui pesquisar quem eram na internet. Vi o que batia mais com a minha vida, que eu acho legal e que tem a ver comigo. O Poty, porque era muralista a nível nacional, com artes que vão durar enquanto a cidade estiver viva. O Paulo Leminski era muito zica, ele era um defensor do grafite, era da contracultura e foi contra o que a galera da época dele falava que era bom na questão de escrita, de métrica, da poesia. Ele não era uma pessoa quadrada, ele foi alguém que desenquadradou, saiu da caixa. Foi uma pessoa que se diferenciou naquilo que fazia, para se destacar com muita inteligência e verdade. A Helena Kolody é a mesma coisa, ela dedicou a vida a dar aula, ela nunca se casou, ela dava vida pela poesia dela. O  haikai dela que eu coloquei na minha obra, ela levou dois anos para fazer, porque tem muita sabedoria da vida em poucas palavras, faz muito efeito. Essa obra tem um poder inexplicável e ali eu vi o poder de uma arte, já que ela mexe com quem vai lá olhar. 

Mas você continuou sem passar nos editais. Então como é que você financiou isso?

Através de outros trabalhos que fiz para empresas e marcas, que é onde eu tiro o dinheiro. Agora, também estou construindo para vender e fazendo outras fontes de renda para poder continuar sendo o mais livre possível na arte. Vendo produtos e financio também com ajudas, como doação de tinta e vaquinha online. 

Deixa eu te fazer uma pergunta que me deixa curiosa: segurança no trabalho. Às vezes você posta alguns vídeos, principalmente no Vandal, pendurado na pedra, pendurado onde der, como é que é trabalhar nessa condição? 

Eu tenho curso NR35 e NR18. Nem sempre o que passa no vídeo é o que é a realidade. Às vezes é só para chocar, impactar, como nesse vídeo da pedra, em que a pedra estava ali só para direcionar a corda, que estava amarrada em outros dois pontos de ancoragem. Eu podia usar um sargento, que é só um negócio que aperta a corda, mas como eu tinha essa pedra lá…  Na verdade, é a imagem, às vezes, que quer passar, para dar um choque, para poder divulgar mais e ir mais longe, mas não que realmente faça as coisas desse jeito, até porque, para esses trabalhos em altura, tem um engenheiro que está sempre junto comigo. 

Quem era o engenheiro lá no mural do Mandela? (Feito no edifício abandonado que fica nas esquinas das ruas São Francisco e Presidente Faria, no centro de Curitiba).

(Risos) Não teve engenheiro nenhum, né?! A gente mesmo que foi os engenheiros.

Você tem mais tesão em fazer no vandal ou mais tesão em fazer com tudo dentro das regras? Porque tem uma adrenalina e isso também faz parte do job, né? 

Faz, eu tento não diferenciar, eu tento ver tudo como pintura, até para eu poder ter essa liberdade de fazer, sabe? Porque, mesmo fazendo trabalhos que não têm autorização, eu tento fazê-los em um lugar que seja abandonado ou que seja público, que eu acho que não vai interferir. Quando eu pinto algo público, eu me sinto tão dono quanto qualquer outra pessoa ou o Estado, no sentido de um biadulto, ou uma coisinha desse que não seja uma estátua, ou algo tombado, né? E os locais abandonados para dar vida, né? 

Os seus murais, muitos deles têm Deus nomeado, né? Por exemplo, o Leminski, que foi um grande transgressor, como a gente estava conversando agora há pouco. Será que Leminski queria Deus em cima dele?  

Ah, eu também sou um transgressor, não me importei com isso. A própria filha do Paulo Leminski, quando viu, queria que eu apagasse e colocasse uma outra frase e eu disse que não, porque eu tinha escolhido fazer aquilo. Eu fui atrás e eu pedi em oração para Deus me ajudar, para poder ter o material e a capacidade de tornar aquele sonho possível. E eles não me deram nem dez centavos, nem um real, não me pagaram um almoço, nada, nem um refrigerante. Foram lá me conhecer e não ajudaram em nada, mas queriam dizer o que eu ia colocar? Eu tenho essa gratidão, e o uso da possibilidade do grafite me deu liberdade de expressão. Querendo ou não, certo ou errado, para quem acredita ou não, é um olhar para algum lugar. Se você não gosta, é só olhar para outro lado e continuar a sua vida. Ninguém é obrigado a ficar olhando para aquilo, nem para nada. E se ele (Leminski) ia gostar ou se ele não ia, para mim, tanto faz. 

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