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Crônicas escolares: o trocadilho involuntário

Uma aluna me trouxe um texto falando sobre o "mentiroso conto mais". E pra entender o que ela quis dizer?

Por Admin
Crônicas escolares: o trocadilho involuntário
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E teve o dia que chegou a minha mesa a redação de uma aluna onde se lia seguinte frase: "(...) e além de tudo ele era um mentiroso conto mais (...)"

Dei a típica coçadinha de estranhamento na cabeça e argui a estudante quanto ao significado daquela expressão curiosa. Ela, com ares de "ué, mas não é óbvio?", esclareceu: "Um mentiroso conto mais, um mentiroso que mente o tempo todo, conta uma mentira atrás da outra."

Continuei o inquérito, perguntando se ela tinha ouvido o "conto mais" em algum lugar ou se o tinha criado. Respondeu que o tinha ouvido num podcast.

Cocei a cabeça novamente, em busca da solução, imaginando se eu, como professor, não estava imperdoavelmente por fora dos novos inventos expressivos da língua. Até que meu ouvido treinado e afeito às maravilhas dos trocadilhos elaborou a hipótese: não terá sido "mentiroso contumaz"?

Escrevi a palavra numa folha, perguntei se ela a conhecia. Fez que não. Expliquei o significado. Ela deu uma risadinha, um tapa na testa e afirmou que ia apagar e corrigir.

Disse que não, que estava ótimo daquele jeito, que estava inclusive melhor, que a humanidade seria menos humana sem as invenções e descobertas involuntárias, que nenhuma borracha ou caneta vermelha ousariam pousar naquele texto, e que, afinal, um mentiroso conto mais é muito mais mentiroso do que um mentiroso contumaz.

E assim termina a história. Outro dia conto mais...

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