Nesta sexta, dia 11 de dezembro, a secretária municipal de Saúde de Curitiba, Márcia Huçulak, declarou ter sido surpreendida pelo pico atual de Covid-19 na cidade. “É um momento crítico, difícil e inesperado. Não é uma época em que teríamos preocupação com a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) por conta do período de primavera indo para o verão. Esse é o resultado da decisão da sociedade, já disse isso várias vezes. O tamanho da pandemia é o tamanho do comprometimento de cada um”, declarou ao jornal Tribuna do Paraná.
Não foi a primeira vez que a secretária afirmou não ter percebido que a cidade seria atingida por uma nova onda de casos da doença. Muito menos que dessa vez o sistema de saúde pública e privada da região entraria em colapso, como registrado nos últimos dias.
O Plural voltou aos dados da pandemia na cidade, que são divulgados pela própria Secretaria Municipal de Saúde (SMS), para verificar se havia sinais de que as infecções pelo coronavírus voltariam a colocar a cidade no limite. E se havia como prever a situação que estamos no momento.
Previsão de casos
A pandemia de Covid-19 é um acontecimento certamente novo, mas a ocorrência de surtos de doenças causadas por vírus, não. A medicina tem uma área inteira dedicada a estudar o comportamento da propagação de doenças, a epidemiologia (que, inclusive, é uma das áreas em que a secretária se especializou).
Entre inúmeros indicadores analisados pelos especialistas para se antecipar ao comportamento da doença está o Número de Reprodução (Rt), que estipula quantas pessoas são infectadas a partir de uma única pessoa contaminada. Na teoria, um Rt abaixo de 1 significa uma futura redução na velocidade do contágio. Acima de 1 há uma aceleração no contágio.
Em Curitiba, a SMS passou a divulgar o resultado do cálculo do Rt local (sem detalhamento) nos painéis semanais de dados em 28 de agosto (relativo a 20 de agosto, pois o índice é calculado em relação ao período anterior).
Desde então, depois de um crescimento pontual com pico em 1o de setembro, a cidade registrou um período de 35 dias, segundo os dados da SMS, de Rt abaixo de 1, o que implicaria na redução de casos. Isso de fato aconteceu.

Porém, os mesmos dados da SMS mostram também que durante esses 35 dias houve uma clara inversão de tendência a partir de 21 de setembro. A partir dali o Rt passou a registrar valores cada vez mais próximos de 1, até ultrapassar esse limiar em 23 de outubro, quando a secretária lamentou este fato em sua última live semanal (confira o trecho no vídeo).
A médica Marion Burger, que acompanhava a secretária na live, reforçou: "Se a gente quiser controlar essa pandemia, a gente precisa manter esse R abaixo de 1". Os comentários de ambas naquele momento, no entanto, não citavam que o aumento do R era parte de uma tendência de alta. E que isso refletiria num constante aumento de casos pelo menos nas próximas duas semanas.
Na live da semana anterior ambas haviam comemorado o R ainda abaixo de zero, também sem citar a tendência que os dados que tinham em mãos mostravam e a atribuíam a uma "mudança de hábito" que, na opinião da secretária naquele momento, a população tinha incorporado (confira o trecho abaixo).
Mais importante, no dia 23 de outubro apesar da tendência de aumento no Rt e a expectativa de aumento de casos nas semanas seguintes, a prefeitura renovou os decretos que regulamentavam a bandeira amarela. Dali duas semanas dois eventos previsíveis estavam para acontecer: o feriado de Finados (2 de novembro) e o início da reta final da eleição municipal.
Ou seja, naquele 23 de outubro a SMS tinha em mãos dados que indicavam tendência de aumento de casos nas duas semanas seguintes. Esse período crítico se encerraria num feriado prolongado em meio a uma previsão de calor.
Em 6 de novembro a prefeitura autorizou a reabertura de cinemas, teatros e casas de festa para até 50% da capacidade de público dos estabelecimentos. O painel de dados da pandemia na cidade, elaborado pela SMS aponta que em 30/11 o Rt estava em 1,11 (variando entre 1,07 e 1,16).
Também havia um novo indicador importante aparecendo. A média móvel de novos casos confirmados registrou em 6 de novembro um aumento de 22% em relação a semana anterior, foi de 334 para 408. Já era um reflexo do taxa de transmissão de 1,13 de 19 de outubro?

Ainda em 6 de novembro a prefeitura voltou a aumentar o número de leitos de UTI Covid-19, algo que não acontecia há 81 dias. A cidade vinha desativando leitos. Foram 81 leitos fechados. Dez dias antes, em 21 de outubro, a cidade voltou a atingir 80% de ocupação de UTIs pela primeira vez em 17 dias. No dia 6 foram reabertos 9.
Entre os dias 21 de outubro e 5 de novembro o índice de ocupação de leitos de UTI Covid ficou, em média, em 78%, chegando a 81% no dia 5. Entre os dias 6 e 13 de novembro a ocupação ficou, em média, em 77%.
Em 15 de novembro mais uma aglomeração previsível: 940 mil eleitores curitibanos registraram seus votos para prefeito e vereador.

A partir do dia 14 de novembro os próprios indicadores da prefeitura já apontavam para mudança do alerta e a imposição de novas restrições a mobilidade da população e a redução da circulação de pessoas para conter a transmissão da doença. A expectativa era que esta decisão fosse anunciada na sexta-feira, quando a prefeitura divulga o cálculo dos indicadores de alerta.
Na sexta, dia 20 de novembro de manhã, uma semana depois de ser reeleito no primeiro turno, o prefeito Rafael Greca, a secretária da Saúde, Marcia Huçulak participaram de uma coletiva de imprensa.
A média móvel de novos casos havia crescido 60% em relação a semana anterior. A taxa de ocupação de UTIs estava em 86%. E a de enfermarias em 80%. O número de óbitos pela doença havia aumentado 33%.
Prefeito e secretária aproveitaram a imprensa para culpar a população pelo aumento dos casos. "As pessoas perderam o medo do vírus", afirmou Huçulak. Apontou também um novo culpado: "E os nossos jovens, nada contra. Aliás a juventude é o futuro. Também as baladas, pedi apoio a polícia militar".
Segundo a secretária, o número que justificaria essa acusação é que haveria um maior número de casos entre jovens, pessoas de 15 a 40 anos, que teriam casos leves da doença, mas seriam "uma cadeia de transmissão importante que atinge dentro da família".
Nesta ocasião, o Plural questionou a secretária por que a alteração da tendência do R não havia chamado a atenção dela já em outubro. "O R é sempre da semana anterior. Nós passamos aí 21 dias com nosso R 0,86, 0,90, 0,82. Na quinta passada ele foi para 1,1, que ele subiu. Então não sei da onde você tirou a informação do R tava alterado. Nunca passou tanto tempo com R abaixo de 1 que mostrava a quebra da cadeia de transmissão", respondeu.
O dado, no caso, está no boletim semanal de dados da prefeitura. Na semana anterior o R, ao contrário do que afirmou Huçulak, era 1,25.

No boletim anterior a esse, de 6 de novembro, o Rt informado, relativo ao dia 30 de outubro, foi de 1,11. E o boletim do dia 29 de outubro, o Rt do dia 26 de outubro é 1. No dia 23 foi informado o Rt do dia 19 de outubro: 1,13.

Na mesma sexta, a prefeitura anunciou o fechamento da UPA Fazendinha, transformada em leito clínico e a manutenção da bandeira amarela. O "truque" de aumentar leitos na sexta-feira manteve o cálculo da bandeira abaixo de dois, justificando a manutenção do alerta no amarelo. Mas só durou um dia. O crescimento de casos estava em plena aceleração.
Daí para frente a situação só piorou. A prefeitura abriu centenas de leitos, mas não conseguiu baixar de 90% a ocupação de UTIs. Uma segunda UPA foi fechada. Mas o caos no sistema já estava formado.