Dia 29, último domingo do ano de 2024.
Pela manhã, próximo ao meio dia, fui ao Mercado Municipal para comprar um pescado. O Mercado estava cheio, era gente passeando e/ou comprando. Muita gente, também, pelo lado de fora. Eram tantos e tantos que não consegui contá-los.
Fora, alguns caminhavam, outros estavam sentados ou deitados nos bancos ou no chão. Alguns pediam comida ou cachaça, desejavam suprir suas necessidades.
Entre tantos, entretanto, não vi nenhuma mulher.
Na Sete de Setembro, duas quadras do Mercado, um homem estava sentado no chão da calçada, com as costas encostadas na parede de um prédio, a perna esquerda esticada e a direita dobrada.
Sobre o joelho da perna dobrada, a distância, tive a impressão de ver uma cabeça. Mais próximo confirmo: era uma cabeça, destas de manequim de salão de cabeleira e sobre ela uma peruca. Com a mão direita segurava-a pelo pescoço, com o “rosto” voltado para o dele.
Com os dedos da mão esquerda, em movimentos lento e sensível, arrumava, penteava e acariciava os cabelos. Acariciava e sorria.
Em seguida esticou o braço e colocou a cabeça mais distante dos olhos, com atenção, virou a cabeça de um lado e do outro. Admirava o seu trabalho ou a mulher que via naquele “rosto”?
Recordava naquele “rosto” algum amor do passado?
Sozinho sorriu.
De repente interrompeu o sorriso, aproximou a cabeça de seu rosto e voltou a arrumar os cabelos. Deveria ser algum detalhe que entendeu não ter ficado bom. Ou talvez, ainda não estivesse do jeito que ela se penteava.
Novamente estendeu o braço direito afastando a cabeça de seus olhos, olhou de frente, dos lados e por trás. Novamente sorriu. Agora parece ter ficado do jeito que queria, ou será que ficou do jeito que ela se penteava?
Próximo constato que os cabelos são lisos, presos por uma tiara, os lábios salientes com batom vermelho, que combina com a flor da tiara.
Ao me ver baixou a cabeça que estava à altura de seus olhos e segurando-a pelo pescoço coloca-a virada para baixo. Os cabelos caem soltos, pendurados, ele passa a mão sobre os mesmos, como que para tirar algum pó, me olhou, sorriu e baixou a cabeça.
Sorrio para ele e continuo meu caminho sem olhar para trás.
Naquele momento tive uma dúvida, desejava ou não, feliz ano novo