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Governo do Paraná usa dados falsos para repassar ICMS Ecológico

Documentos internos comprovam prática ilegal que pode estar acontecendo desde 2016. Ministério Público recomenda auditar contas dos repasses dos últimos anos. Até o dia 30 de dezembro ainda existe remota possibilidade de que o governo recue da posição

Por Admin
Governo do Paraná usa dados falsos para repassar ICMS Ecológico
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O governo do Paraná vai se basear em dados manipulados irregularmente para fazer o repasse de 2020 do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para municípios que atendam critérios de conservação ambiental, como a gestão de florestas e de recursos naturais. Trata-se do chamado ICMS Ecológico. O “imposto verde” representa 5% do total do ICMS, que deve ser distribuído anualmente às cidades. No entanto, a utilização dos dados falsos pode fazer com que dezenas de milhões de reais sejam destinados a prefeituras do Estado que não cumprem a lei e não realizam ações ambientais.

Sópara as cidades do litoral do Paraná, que contam com 46 unidades deconservação, aproximadamente R$ 5 milhões deixariam de ser repassados em 2020.São mais de 60 ações na justiça que questionam o repasse do ICMS Ecológico. OMinistério Público do Paraná (MPPR) já determinou a realização de auditoria noscálculos dos chamados “Fatores Ambientais” do repasse do ICMS dos últimos anos– 2017 e 2018. Contudo, a promotoria acredita que essa divergência dos dadosvem ocorrendo desde 2016.

Documentosformulados por técnicos do próprio Instituto Ambiental do Paraná (IAP), apartir de processos de investigação interna, apontam que a distribuição do ICMSEcológico não está sendo feita de acordo com a legislação. O descumprimento dametodologia para elaborar os valores de repasse do ICMS Ecológico, como apontaa documentação, conclui que “notas” mais elevadas foram dadas a municípios quenão têm compromisso com a preservação ou com a conservação da natureza, critériosfundamentais para definir os valores da distribuição do imposto.  

Essasavaliações deveriam ser realizadas anualmente. Isso distorce todo o valor que teriade ser, de fato, repassado aos municípios. Segundo os técnicos do governo, “nãofoi possível identificar a metodologia usada para o cálculo nos anos anteriores(2018 e 2019). Simulações e estudos apontam que eles poderiam estar emdesconformidade, haja visto a aplicação das fórmulas previstas pela legislaçãovigente”.

Alémdisso, as análises apontam que “o cálculo realizado pelo ano anterior pode nãoter representado o resultado esperado pela aplicação da fórmula”, “salvo melhorjuízo, os índices anteriores não estavam de acordo com a metodologia prevista”e “observou-se grande disparidade com o exercício anterior”.

Para piorar o cenário, mesmo com as recomendações dos técnicos do próprio Governo, uma resolução assinada pelo secretário estadual de Desenvolvimento Sustentável e do Turismo, Marcio Nunes (PSD), aponta que a manipulação dos dados prosseguirá no ano que vem. O documento estabelece que “para o exercício de 2020” serão utilizados “os mesmos percentuais de índices ambientais (...) de 22 de novembro de 2018”. O número da resolução é 69/2019.

Diantedessa situação, o Ministério Público emitiu um documento recomendando que o governodo Paraná atenda as recomendações técnicas e ajuste os valores que devem serrepassados às prefeituras. Até o dia 30 de dezembro ainda existe a remotapossibilidade de que o governo recue sua posição. “Municípios que deveriam terincremento significativo de ICMS Ecológico não receberão o valor devido e quedeveria ser o valor corretamente calculado para o ano conforme asregulamentações vigentes”, aponta o MP em sua recomendação.       

Além disso, municípios quecriaram novas unidades de conservação ficarão sem o reajuste no repasse. Conformeconsta no documento expedido pela promotoria, no Estado foram cadastradas 31novas unidades de conservação. “Os municípiosque criaram novas Unidades de Conservação não receberão o ICMS Ecológico em2020. Vários municípios criaram novas UCs de grande valor ecológico”, detalha odocumento do Ministério Público. “Dessaforma, municípios que precisam do repasse ficarão sem receber os valorescorretos. Isso é desigual e prejudica as ações de conservação dabiodiversidade”, ressalta o diretor executivo da Sociedade de Pesquisa em VidaSelvagem e Educação Ambiental (SPVS), Clóvis Borges.

ParaGiem Guimarães, diretor executivo do Observatório de Justiça e Conservação,essa prática de usar dados antigos e falsos gera suspeitas. “É um absurdo isso!Muitas prefeituras que não cumprem a determinação da lei podem estar recebendoesse recurso de forma ilegal e, outras, que precisam, estarão tendo um grave danono erário público”, salienta.

Outro lado

Osecretário estadual de Desenvolvimento Sustentável e do Turismo, Marcio Nunes(PSD), afirma que, desde janeiro, foi criado um grupo técnico dentro da pastapara analisar o repasse do ICMS Ecológico. Segundo ele, esse grupo, realmente, descobriuinconsistências no repasse. Mas, ele afirma que não é possível alterar osvalores neste ano devido a uma votação na Assembleia Legislativa que determinouque os novos índices para repassar a verba só valerão daqui a dois anos.

“AAssembleia passou uma lei dizendo que os índices desse ano só valerão paradaqui dois anos. Teremos um tempo grande para discutir os índices e fazer acoisa de maneira correta. Temos que achar o índice correto para pagar paraaqueles municípios que preservaram o meio ambiente”, disse.  

ENTENDA

Como funciona a distribuição do ICMSEcológico?

OICMS Ecológico corresponde a 5% do ICMS, que devem ser divididos em partesiguais entre os municípios que tenham mananciais para preservar e as cidadesque abrigam unidades de conservação, terras indígenas, Reservas Particulares doPatrimônio Natural (RPPNs), faxinais e reservas florestais legais.

Como funciona o repasse do ICMS?

De todo o dinheiro arrecadado pelo governo do Paraná com a cobrança do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), 25% são distribuídos por força de lei aos 399 municípios. Há uma competição entre as prefeituras por esse recurso, que chegou a R$ 7,5 bilhões em 2018. Na teoria, o ICMS é dividido atendendo a critérios técnicos, que vão do volume de negócios firmados dentro da cidade à produção agropecuária, passando pelo número de habitantes e pelo fator ambiental – que é o ICMS Ecológico. Quanto melhor o desempenho do município nos critérios, maior será a fatia dele na divisão do ICMS.

Os cálculos do ICMS Ecológico englobam:

-Coeficiente de Conservação da Biodiversidade para o Município;

-Coeficiente de Conservação da Biodiversidade para o Estado;

-Índice Ambiental por unidade de conservação para o Município; e

-Total de recursos financeiros repassados ao Município.

Matériaproduzida pelo núcleo de jornalismo investigativo do Observatório de Justiça eConservação, o OJC Investiga.

Tags: Paraná

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