Com relatos de 60 ativistas, que nos anos 60 e 70 participaram do movimento estudantil e da mobilização sindical, “Vozes da Resistência, Memórias da Luta contra a Ditadura Militar no Paraná” tem eventos de lançamento marcados para esta semana na Universidade Federal do Paraná (UFPR), na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), e no Centro Judiciário de Curitiba (antigo Presídio do Ahú, onde alguns dos autores da obra estiveram presos).
O livro é organizado pelo jornalista, escritor e ativista social Aluízio Palmar, editor do site associado ao Plural Documentos Revelados, com um dos maiores acervos de documentos referentes ao período da ditadura no Brasil e na América Latina. Em suas páginas o leitor encontra memórias dos autores com revelações sobre fatos do período sombrio da ditadura, em grande parte apagados da história oficial do Paraná.
“Vozes da Resistência, Memórias da luta contra a ditadura militar no Paraná”
Ao Plural, o organizador da obra falou sobre como o livro foi criado a partir do grupo no WhatsApp "Geração 68", da resistência e dos centros de tortura em Curitiba, e da importância de repetirmos sempre 'Ditadura Nunca Mais! A seguir, confira a entrevista de Palmar sobre “Vozes da Resistência, Memórias da Luta contra a Ditadura Militar no Paraná”.
O livro nasceu de um grupo de WhatsApp. Como surgiu esse grupo e por quê?
Pois é, o grupo Geração 68, é uma articulação nacional dos sobreviventes da luta contra a ditadura militar. Aqui no Paraná, a gente vem reunindo aqueles e aquelas que, quando jovens, resistiram ao arbítrio. O grupo Geração 68 é um espaço de encontros e reencontros das memórias vivas, afetivas e mágicas dos e das militantes.
Quanto tempo levou a produção do livro? Como foi feito?
No ano em que o golpe militar de 1964, completa 60 anos, a gente procurou marcar a data produzindo um livro com relatos de 60 autores, todos ex-militantes da resistência no Paraná. Foram aproximadamente 45 dias entre reunir os autores e colher os textos. Não foi difícil, pois a maioria dos autores se conhecem e no grupo de WhattApp já ensaiavam suas memórias. Enfim, o livro é composto por escritos que trazem uma enorme contribuição, a partir de pequenos relatos, todos juntos permitem uma visão mais ampla do que foi a ditadura no Paraná. Rigorosamente, não foi uma tarefa resgatar as lembranças da parede da memória, algumas amargas e doloridas.
O grande comício das Diretas Já, no ano de 1984, talvez seja o ato pela democracia em Curitiba que ficou em destaque na história do Brasil. Contudo, a luta contra a ditadura no Paraná foi importante enquanto resistência popular e também violenta, com prisões e tortura. Por que houve um pagamento desse período sombrio por aqui?
A ditadura foi muito cuidadosa em impor a “página virada”, levando muitos a crer que aquele passado estava enterrado. É do interesse do opressor apagar a história dos oprimidos. Entretanto, hoje sabemos mais do que nunca da importância de repetir sempre, 'Ditadura Nunca Mais!'
A partir de relatos de sobreviventes de torturas aplicadas por agentes do Estado brasileiro durante a última ditadura militar o livro “Vozes da Resistência” pretende demonstrar de que maneira leis institucionais, apoiadas pela elite socioeconômica e boa parte da sociedade brasileira, visam promover o apagamento da memória coletiva nacional através do esquecimento forçado de nossa história.
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Quais as principais frentes de resistência que aparecem nas lembranças resgatadas nos textos?
As lutas estudantis contra o ensino pago ocupam boa parte dos relatos e revelam uma Curitiba insurgente que defendeu a universidade pública e gratuita. Chama atenção no livro a luta das mães dos presos políticos, que saíram batendo nas portas das repartições policiais e dos quartéis em busca de seus filhos. É importante o resgate não somente das trilhas da resistência, como por exemplo, da tomada da Reitoria da UFPR, mas também das trilhas da repressão, como os centros de tortura instalados na DOPS, na Clínica Marumbi, na delegacia da PF e no Quartel da Praça Rui Barbosa.
Você assina dois textos na obra. Falam sobre o que especificamente?
Um é sobre as lutas no campo no Oeste do Paraná e a tentativa de resistência armada à ditadura na região. O outro texto fala do jornal Nosso Tempo, que durante 15 anos esteve na trincheira da luta pela democracia e foi duramente perseguido pela ditadura militar.
Qual a importância do lançamento da obra nos dias de hoje?
O livro é a colaboração de uma geração, que hoje beira os 80 anos, para a memória nacional. É um libelo contra o apagamento e pelo direito à memória. Enfim, é uma estratégia de resistência dos “cabelos brancos".
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Serviço
Lançamento do livro “Vozes da Resistência, Memórias da luta contra a ditadura militar no Paraná”
Dia 14/05
Ato simbólico (em referência aos 56 anos da retomada da Reitoria pelos estudantes), lançamento e bate-papo, dia 14 de maio (terça-feira), às 10h, no Teatro da Reitoria UFPR (R. XV de Novembro, 1299 - Centro).
Lançamento do livro com depoimento de alguns dos autores, dia 14 de maio (terça-feira), às 19h, no Salão Nobre Faculdade de Direito UFPR (Praça Santos Andrade - Centro).
Dia 15/05
Lançamento e bate-papo, dia 15 de maio (quarta-feira), das 9h30, na Sala Lugar de Memória (Lume); e às 14h, no Arquivo Público do Centro Judiciário de Curitiba (antigo Presídio do Ahú, onde alguns dos autores da obra estiveram presos).
Lançamento do livro com bate-papo e sessão de autógrafos, dia 15 de maio, às 19h na PUCPR (R. Imac. Conceição, 1155 - Prado Velho).