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Meu caro amigo Daniel Medeiros (carta 3)

Collor caiu! Não sei qual o sentimento do amigo. Vendo esta onda conservadora que arrebatou a nossa sociedade, será que valeu a pena?

Meu caro amigo Daniel Medeiros (carta 3)
Zélia Cardoso de Mello perde o cargo de ministra da Fazenda após fracasso do confisco. Foto: Arquivo
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Caro amigo,

Você lembrou dos nossos almoços na Cantina Vesúvio - bom restaurante - lembro que eventualmente o nosso amigo professor Tadeu almoçava conosco. Companhia agradabilíssima: alegre, culto, torcedor do alvinegro do Parque São Jorge e com piadas nem sempre inspiradas. O importante é que divagávamos sobre temas diversos. Íamos de Santo Agostinho à Marx em discussões acaloradas.

Lembro também que em uma ocasião, alguns alunos passaram por nós e um deles disse: “Professor Daniel deixe um pouco de comida para o Mocellin. Mal sabia ele que eu comia bem mais do que o amigo. Você respondeu com um silêncio resignado. O mundo é injusto.

Assisti com tristeza aos resultados das eleições presidenciais de 1989. Brizola não foi para o segundo turno. Fiquei esperando a decisão do comandante. O nosso caudilho ordenou que devíamos apoiar o Lula. Foi o que eu obedientemente fiz. Covas sugeriu que seus eleitores fizessem o mesmo. O amigo aderiu com entusiasmo ao perigoso “comunista”.

A campanha foi maravilhosa, só perdemos devido ao terrorismo midiático, empresarial e o conservadorismo de uma classe média ainda pautada pelos temores disseminados durante a Guerra Fria. Para variar, Curitiba “Coloriu”, votando maciçamente no falso “ Caçador de Marajás”.

Lamentei profundamente o fracasso da Perestroika, que provocou o fim da União Soviética. Gorbatchev foi ingênuo, diferentemente de Deng Xiaoping, que soube promover uma segunda revolução na China, rompendo com a ortodoxia maoísta, sem subordinar-se aos imperialismos. A existência de regimes socialistas, com todos os seus defeitos, era um entrave à onda neoliberal que a partir dos Estados Unidos (Reagan) e Reino Unido (Thatcher) se espraiava pelo mundo.

Eu havia comprado um Lada. Com a introdução do capitalismo na Rússia do etílico Boris Yeltin, vendi o Lada e comprei um Subaru. Capitalismo, por capitalismo, prefiro o japonês.

Lembra de um colega nosso que votou co Collor e depois ficou desesperado com o confisco da Poupança? Fiz uma brincadeira com ele. Na sala dos professores tínhamos uma assinatura da Folha de S.Paulo - ainda um jornal decente - este assim que chegava se debruçava sobre o jornal, monopolizando a leitura. Guardei a edição do dia do anúncio do confisco pela Ministra Zélia Cardoso. Meses depois coloquei aquela edição sobre a mesa. O colega entrou na sala com um péssimo humor. Ao ler a manchete disparou uma saraivada de palavrões que ressoaram por toda a rua Ângelo Sampaio. Ao perceber que fora enganado desconfiou de mim, até hoje não sei a razão de ter desconfiado de minha sacrossanta pessoa.

Na campanha para o impedimento do Fernando Collor, haveria uma manifestação em Curitiba dos “caras pintadas”. Eu estava entrando na sala para dar mais uma aula. Um grupo de alunos de maneira bastante constrangida veio se justificar dizendo que iriam à manifestação e por isso não assistiriam à minha aula. Esperavam que eu os censurasse. Olhei para eles com esses meus belos olhos e sapequei a seguinte frase: “Vão à manifestação! Em vez de vocês assistirem a uma aula de história, por favor ajudem a fazer história!".

Collor caiu! Não sei qual o sentimento do amigo. Vendo esta onda conservadora que arrebatou a nossa sociedade, será que valeu a pena? Pessoas que tiveram aulas conosco defendendo o Regime Militar? Apoiando pautas de extrema-direita? O que valeu a pena com certeza foi a preservação de nossa amizade e a coerência de nossa caminhada. Na próxima cartinha quero um relato do ano esportivo de 1995, especial para você e para mim. Um forte abraço!


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Renato Mocellin

Renato Mocellin

Professor de História, autor de "História Concisa de Curitiba"

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