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Podcast - Raiva ruim

Daniel Medeiros fala sobre a necessidade de controlarmos nossa raiva contra os maus

Por Admin
Podcast - Raiva ruim
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Sinto raiva. Meu corpo, às vezes, chega atremer com o percurso transido da raiva e espremo meus dedos nas palmas dasmãos a ponto de doer, deixar marcas. Então vou pra varanda, fico em silêncio,distante, olhando para um horizonte qualquer, ruminando imagens de atitudes quesei que nunca realizarei, mas que servem para aliviar meu espírito.

Tenho raiva das pessoas frias, das pessoasbrutas, das que ignoram o pudor e a decência, das que são violentas, das quegritam pedindo por violência, das que ignoram o horror de tudo isso e,principalmente, das que riem de todos que, como eu, sentem raiva.

Minha raiva , sei disso, tem nome: chama-se impotência de compreensão. Por não conseguir tirar aquele sorriso vil do rosto de quem quer destruir coisas que me são caras e de quem  quebra placas e arranca faixas com as mensagens mais sinceras de consertar o mundo para todo mundo, para melhorar as coisas para além de mim e justamente por isso são as atitudes que mais despertam o riso frouxo e cínico e diante disso eu me refugio na raiva.

Acompanho as redes sociais e leio sobre asraivas dos outros, muitas tão parecidas e algumas ainda mais sofridas do que aminha. Vou apertando os botões que expressam apoio e solidariedade, voucompartilhando os textos inflamados dos atingidos como eu, vou escrevendo eeditando imagens que se multiplicam dentro da noite veloz. Na manhã, jácedinho, volto para as redes e leio os comentários dos que riem. E estremeçonovamente.

Os dias passam. Os meses se arrastam e, toda avez que me deparo com essas pessoas, minha tênue esperança no mundo esmorece.Por que há tanta gente cuja energia de viver consiste em negar aos outros odireito à uma felicidade que não fere, não humilha e não mata?

Há mais de dois mil anos, Aristoteles já diziaque a busca da felicidade é movida por um sentimento de falta e que essesentimento varia de pessoa para pessoa, mas que todos entendem que buscar umfim, preencher uma lacuna ( saúde, riqueza, amor) é o caminho para se sentirfeliz. Logo, a felicidade é uma busca afirmativa, um preenchimento, umarealização. Mas não para essas pessoas de quem sinto raiva. Para elas, osucesso é ver os outros perderem algo, serem privados de algo, ameaçados poralgo, destituídos de algo: a escola, o emprego, a aposentadoria, a escolha, oespírito crítico.

Temo que ultimamente essas pessoaszombeteiras  tenham tomado a dianteirasobre mim. Temo que elas tenham me contaminado com sua estratégia deaniquilação. E a prova disso é exatamente essa raiva que sinto. Esses pensamentosque tenho sobre elas. Essa vontade que me imobiliza, esse tremor que me acendeos nervos e enevoa a vista. Eles são os senhores da raiva que sinto.

E busco reagir com a ajuda da minha amigaFilosofia. E encontro o que diz sabiamente a filósofa Chantal Mouffe:  o desafio que se coloca à política democrática é tentar manter sob controle o surgimento do antagonismopor meio da introdução de uma forma diferente de nós/eles. Uma forma que não seja de amigo e inimigo. Uma formaque não tenha a raiva como fio condutor. E para isso acontecer, minha raiva temde se tornar outro sentimento, um sentimento que gere resultados práticos nadefesa dos espaços institucionais nos quais aconteça a relação política e não arelação de guerra. É preciso olhar essas pessoas como adversários a seremderrotados e não como inimigos a serem eliminados. Por isso o  desastre é negar as instituições nas quaisessas pessoas possam ser vencidas pela inteligência e pela palavra. O desastreé desistir de construir espaços de representação e de regras de atuação, paraobrigar essas pessoas a sustentar suas posições sem poderem arrancar faixas equebrar placas, mas com explicações e argumentos.

Valho-me mais uma vez de Chantal Mouffe: Parafuncionar, a democracia exigeque haja um choque entre posições políticas democráticas legítimas. Sem essa válvula deescape, o risco é de que oconfronto democrático seja substituído pelo confronto entre valores morais não negociáveis.

É isso que eles querem. Jogar-nos na arena doscombates sem regras onde apenas o ódio cego e a vontade de destruição impera.

Nesse jogo seremos inapelavelmente destruídos.Porque sabemos que nossa raiva é ruim, nossa raiva nos contamina e nos adoece.Eles vencerão se cedermos. Eles vencerão se deixarmos a raiva ruim nos dominar,se entrarmos na competição de quem xinga mais e grita mais alto. Eles vencerãono momento que também quebrarmos placas e arrancarmos faixas.

O sorriso deles é um sinal, é um aviso: com anossa aquiescência, eles já estão quase chegando lá.

Tags: Paraná

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