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Bolsonarista Ricardo Arruda chama ministra Carmen Lúcia de "bruxa" e ofende deputadas

Deputado será denunciado ao Conselho de Ética. "Até quando essa frescura?", questionou Luiz Cláudio Romanelli aos bolsonaristas

Bolsonarista Ricardo Arruda chama ministra Carmen Lúcia de "bruxa" e ofende deputadas
O deputado estadual Ricardo Arruda | Foto: Tami Taketani/Plural
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A Bancada Feminina na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) vai denunciar o deputado bolsonarista Ricardo Arruda (PL) ao Conselho de Ética da Casa por ter chamado a ministra Carmen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), de “bruxa” e ofendido deputadas na sessão desta terça-feira (16). Após ter a fala misógina criticada por várias parlamentares, Arruda voltou à tribuna e pediu perdão “às bruxas que ficaram ofendidas”, o que só piorou a situação. Ele teve a palavra cassada pelo presidente da Assembleia, Alexandre Curi (PSD).

Antes das votações do dia, Arruda usou seu tempo na tribuna para, mais uma vez, defender o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e os outros condenados pelo STF por participação na tentativa de golpe de Estado em 2023. Segundo ele, o voto do ministro Luiz Fux, pela absolvição de Bolsonaro e outros cinco réus, “desmascarou o Alexandre de Moraes, desmascarou a bruxa da Carmen Lúcia”.

As reações de Cristina Silvestri (PP), Mabel Canto (PP), Luiz Cláudio Romanelli (PSD) e Alexandre Curi sinalizaram que não é apenas a oposição que não aguenta mais os pronunciamentos de Arruda: a direita e o centro também parecem ter se cansado da falta de civilidade do bolsonarista, responsável por um extenso rol de ofensas que inclui ministros do STF, deputadas, um promotor de Justiça, o presidente da OAB-PR, uma ministra e o presidente da República – tudo para defender a si mesmo ou um ex-presidente inelegível e agora condenado a 27 anos e três meses de prisão.

Sem recuo

A primeira reação foi da deputada Cristina Silvestri. “Quero lhe dizer que mais uma vez o senhor desrespeitou as mulheres chamando uma ministra do Supremo de bruxa. Eu gostaria que a presidente retirasse das notas taquigráficas esse termo. É muito pesado para nos mulheres ouvirmos isso”. Flávia Francischini (União Brasil), que presidia a sessão, ordenou que o termo fosse retirado.

Arruda não recuou. “Respeito a sua opinião e quero que a senhora respeite a minha opinião", disse ele para Cristina Silvestri. "Eu acho ela (Carmen Lúcia) uma bruxa, e acho ela outras coisas também, pela farsa, pela risadinha, pelo julgamento de um inocente”, afirmou. “Tanta canalhice que esse Supremo tem feito com o Brasil e eu tenho que me preocupar se vou chamar ela de Cinderela ou de bruxa. Vou repetir sempre, para não dizer coisa pior que ela devia ouvir”.

Líder da bancada feminina, Mabel Canto repudiou a fala e lembrou a agressão à professora Melina Girardi Fachin, diretora do Setor de Ciências Jurídicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e filha do ministro do STF Edson Fachin. Ela foi agredida na sexta-feira (12), na Praça Santos Andrade, três dias depois de bolsonaristas tentarem dar uma palestra sobre supostos abusos do STF na universidade. 

“Todo dia acontece algo violento contra uma mulher. As pessoas acham que as palavras não são violentas, mas são. E o pior são as agressões físicas.”
Mabel Canto, deputada e líder da bancada feminina na Alep
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Em um aparte, a deputada Luciana Rafagnin (PT) se solidarizou com Melina Fachin e repudiou as falas de Arruda. “Quando a gente luta para que as mulheres possam ocupar espaços, principalmente na política, sabemos que é necessário domar um leão por dia. Mas, nos últimos meses, nesta Casa, temos enfrentado muito mais do que isso”, disse.

“Pessoas que são desqualificadas, que falam nessa tribuna palavrões de baixo calão, realmente mostram o despreparo para estar nesta Casa.”
Luciana Rafagnin, deputada

Arruda voltou ao ataque. “Não é xingamento nenhum, é a minha opinião. Chamar uma mulher de bruxa, que ofensa é essa, se é a minha opinião?”, questionou antes de ser interrompido por Alexandre Curi. “Não cabe a sua questão de ordem. Essa Casa tem que dar exemplo para a população paranaense, não pode qualquer parlamentar subir na tribuna e usar qualquer expressão”, disse Curi.

"Até quando essa frescura?"

Luiz Cláudio Romanelli perguntou até quando os bolsonaristas "vão ficar com essa frescura", negando a condenação do ex-presidente.

“Eu queria perguntar ao deputado Ricardo Arruda: até quando eles vão ficar com essa frescura, com esse 'mimimi', vão chorar até quando? Vamos aceitar a realidade.”
Luiz Cláudio Romanelli, deputado

“Perdão às bruxas”

A situação ficou ainda pior quando Ricardo Arruda voltou à tribuna para citar o que o dicionário diz sobre a palavra "bruxa".

"Um adjetivo que cabe para 'bruxa': pode ser feia ou mal-humorada. Muito grave isso realmente. E eu peço perdão às bruxas que ficaram ofendidas."
Ricardo Arruda, deputado

As reações de Alexandre Curi, de Luiz Cláudio Romanelli e da deputada Ana Júlia (PT) foram imediatas.

"Deputado, eu peço respeito. Já pedi para tirar das notas taquigráficas. Vossa Excelência faz uso da tribuna novamente, repete as mesmas palavras, ofende o plenário, ofende as mulheres."
Alexandre Curi, presidente da Alep

Arruda tentou responder, mas Curi cassou sua palavra. Ana Júlia pediu para as falas serem mantidas nas notas taquigráficas, para servirem como prova. Mabel Canto anunciou que a Bancada Feminina vai representar contra o bolsonarista.

"A Bancada Feminina vai ao Conselho de Ética contra a fala do deputado Ricardo Arruda. Ele acaba de chamar essas parlamentares de bruxas aqui dentro. Isso não pode acontecer".
Mabel Canto, líder da Bancada Feminina na Alep

Arruda passou a gritar, mas seu microfone seguiu cortado. "Já cassei a palavra", resumiu Curi, enquanto o bolsonarista discutia com Mabel Canto. Em seguida, o presidente suspendeu a sessão.

Distorções e omissões

Em seu pronunciamento, Ricardo Arruda ainda afirmou que “todos” que estavam na Praça dos Três Poderes em Brasília no dia 8 de janeiro de 2023 são “inocentes” e que “não há provas contra eles” – ignorando que os próprios bolsonaristas gravaram vídeos dizendo que tinham “tomado o poder” e que não deixariam o STF e o Congresso sem uma "intervenção militar". Centenas de vídeos compartilhados nas redes sociais mostraram os apoiadores de Bolsonaro atacando a polícia e depredando o Congresso e o STF. 

O bolsonarista citou ainda o assassinato do ativista supremacista norte-americano Charlie Kirk, na semana passada, para dizer que a “esquerda mata”. “Quem mata sempre é a esquerda. Quando acaba o argumento eles vêm com a faca, vêm com a pólvora, vêm com a bala”. Não há notícia de que algum apoiador de Bolsonaro tenha sido morto por causa de suas posições políticas desde que o ex-presidente chegou ao poder, em 2019.

Ricardo Arruda ainda parece ter se esquecido do caso de Marcelo Arruda, em Foz do Iguaçu; do assassinato do mestre de capoeira Moa do Katendê, na Bahia; e das mortes do advogado Pedro Henrique Dias e de Luana Rafaela Oliveira Barcelos, em Belo Horizonte, no dia do segundo turno das eleições de 2022.

Todos foram mortos a tiros por bolsonaristas. Pedro Henrique, de 28 anos, e Luana, de 12, foram assassinados por um apoiador de Jair Bolsonaro em 30 de outubro de 2022, durante a comemoração pela vitória de Lula, em Belo Horizonte. Ricardo Arruda também não citou Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL, assassinada por milicianos que costumavam frequentar o condomínio onde morava Jair Bolsonaro. 

Condenação, faltas na CCJ e processos

Em março, Ricardo Arruda foi condenado por ofender a ministra Gleisi Hoffman. Em abril, escapou de perder sua vaga na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Alep após três faltas consecutivas – ele apresentou um atestado assinado por um dentista, cerca de 40 dias depois da primeira falta. No mesmo mês, criticou as roupas da deputada Ana Júlia, que denunciou as faltas.

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Em setembro do ano passado, o bolsonarista se tornou réu suspeito dos crimes de associação criminosa, desvio de dinheiro e tráfico de influência. Em maio deste ano, Arruda teve negado pelo Tribunal de Justiça do Paraná o pedido de sua defesa para ter anulada a investigação que levou o Ministério Público do Paraná (MP-PR) a denunciar o parlamentar pelos crimes de lavagem de dinheiro e concussão, em outro processo.

IPVA

A discussão ocorreu no mesmo dia em que a Alep aprovou, em segunda votação, o projeto que reduz a alíquota do IPVA de 3,5% para 1,9% a partir de 2026. O projeto foi aprovado com 48 votos favoráveis. Ana Júlia pediu para o plenário derrubar o parecer da CCJ que descartou três emendas ao texto, na segunda-feira (15), mas 38 parlamentares votaram para manter o parecer do líder do governo, Hussein Bakri (PSD).

José Marcos Lopes

José Marcos Lopes

Jornalista formado pela UFPR.

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