A tarifa de R$ 6,25 para uso do transporte coletivo em Londrina é, agora, mais cara que em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Também é mais alta que em outras cidades médias do Estado, como Maringá e Foz do Iguaçu. Nesta sexta-feira (30), organizações populares promovem um ato no Calçadão contra o aumento.
O sistema é subsidiado pelo município, ou seja, a prefeitura paga para as empresas operadoras - Transportes Coletivos Grande Londrina (TCGL) e Londrisul - metade do que seria o valor necessário para manter a operação. Esse valor “real” chama-se tarifa técnica.
Atualmente a tarifa técnica da TCGL está em R$ 11,86 e da Londrisul em R$ 10,85. Estudo comparativo feito pelo economista Sidnei Pereira, do Departamento de Economia Aplicada da Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde mantém o projeto de pesquisa Eficiência dos Gastos Públicos, mostra que esses valores destoam dos praticados em Curitiba e em Maringá.
Na capital, a tarifa técnica do transporte coletivo está em R$ 7,50 e em Maringá, R$ 7,90. Em Curitiba, o transporte recebe aporte também do governo estadual.

Quais os motivos?
O economista Sidnei Pereira ressalta que as alegações para o alto custo citadas publicamente pela Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), gestora do contrato com as empresas operadoras do transporte, são reais, mas cabe debate.
“O ônibus é de excelente qualidade, isso é verdade; os motoristas são bem remunerados, isso é verdade. Então as alegações para essa diferença de custo existem. A pergunta é se esse benefício adicional justifica um custo 50% mais caro que Maringá, por exemplo. É uma pergunta, eu não estou dizendo que não e nem que sim, eu estou dizendo que nós precisamos discutir melhor isso. A sociedade precisa discutir melhor, os vereadores precisam discutir melhor”, defende.
Para discutir é preciso ter acesso a informações e, na opinião do economista, os documentos disponibilizados pela CMTU dificilmente seriam compreendidos pela população em geral.

“Eu fui olhar as planilhas que estão disponíveis na CMTU e não são planilhas fáceis de ser avaliadas. Comparei, então, com Curitiba: todas as informações estão num formato muito fácil de pesquisar. Eu compararia aquela planilha de custo da CMTU a uma lista de preços. Eu entendo, mas é da minha área. Uma pessoa que não tem a experiência não consegue entender aquelas planinhas”, explica.
Falta transparência
Para Sidnei Pereira, a gestão do sistema de transporte coletivo precisa ser mais transparente. “Acho que a forma de apresentar as planilhas precisa melhorar; a discussão do modelo de transporte em Londrina precisa melhorar. Porque é um custo tão elevado que fico pensando se não seria viável investir, por exemplo, em trem bala, ônibus de superfície aérea - como tem em São Paulo - metrô. Precisa muita discussão e os nossos vereadores devem entrar no circuito”, opina.
Em 2025, houve aumento de 9,31% no número de usuários pagantes no transporte coletivo de Londrina, saindo de 1,48 milhão para 1,62 milhão
Logo após o anúncio do aumento de 8,67% na tarifa, em 16 de janeiro, o Observatório da Gestão Pública (OGPL) emitiu nota no mesmo sentido, cobrando melhor gestão municipal e mais transparência sobre o sistema.
“A questão central do transporte coletivo em Londrina reside na ausência de um controle efetivo por parte da Prefeitura Municipal (PML). Desde o início de nossa atuação, apontamos que o município não dispõe de um sistema de acompanhamento em tempo real para o levantamento fidedigno de custos, fluxo de usuários e volume de pagamentos.”, diz a nota.
Para o OGPL, “o cenário atual, marcado por ônibus circulando com baixa ocupação em diversos horários, um sistema de bilhetagem arcaico e o risco iminente de rombo orçamentário devido à alta tarifa técnica, representa sintomas claros de um modelo que precisa ser integralmente rediscutido.”

CMTU defende transparência
Em nota à reportagem, a CMTU afirma que as planilhas sobre o transporte público são divulgadas integralmente, "item por item", e que, “portanto, não há de se falar em falta de transparência.” A companhia informa que está finalizando o processo de contratação de uma auditoria externa, exigida pelo atual contrato e também recomendada pelo Ministério Público e Tribunal de Contas, “mas que não vinha sendo cumprido em gestões anteriores.”
A CMTU diz ainda que "Todos os dados de operação são monitorados e acompanhados em tempo real com o órgão gestor municipal. O sistema é 100% auditável, sem dependência exclusiva de dados fornecidos pelas concessionárias — o órgão gestor tem acesso direto e independente às informações operacionais."
Procuradas pela reportagem, TCGL e Londrisul não quiseram se manifestar. A Londrisul não respondeu até o fechamento da reportagem.

Sobre a comparação com Curitiba e Maringá, a CMTU discorre sobre a qualidade dos sistemas nas três cidades. Sobre Maringá, diz que:
- Maringá não atende os distritos (área rural) como Londrina. Lá os Distritos são separados e atendidos por linhas metropolitanas. Em Londrina, a tarifa urbana é a mesma que a distrital. Na região de Maringá, as tarifas desses locais variam de 5,95 a 7,35.
- Maringá tem somente 35 veículos com ar-condicionado enquanto Londrina tem mais de 146.
- Londrina tem integração física em todos os terminais, com embarque pelas portas central e traseira. Em Maringá, todos os clientes precisam embarcar pela porta dianteira, passando pela catraca.
- Em Maringá, a jornada de trabalho dos motoristas é de 7h20, em Londrina é somente de 6 horas. Os trabalhadores lá não teriam benefícios como vale alimentação e anuênio.
Sobre Curitiba, a CMTU diz que:
- Curitiba tem somente 6 veículos com ar condicionado.
- Quase 60% da frota tem mais de 10 anos de uso.
- As empresas não recebem a remuneração por depreciação dos veículos por terem mais de 10 anos “e isso faz a tarifa do usuário ser menor.” Em Londrina, a idade média da frota é de dois anos.
- Em Curitiba, as linhas distritais ou mais afastadas são subsidiadas pelo Governo do Estado.
Confira outros pontos citados pela CMTU:
"Em Londrina, o município e os passageiros pagantes bancam 100% do Sistema. Curitiba para ter integração 100%, uma boa parte precisa embarcar nas linhas Expressas (biarticulados) com uma viagem longa e lenta. Para terem mais agilidade, precisam trocar de ônibus através dos ligeirinhos, e em vários casos pagar outra tarifa nas estações tubos.
Em Londrina, segundo o plano de Mobilidade Urbana, possui uma ampla cobertura dos pontos de parada, tendo uma distância média de 250 metros um do outro. Em Curitiba a distância varia de 500 metros a 1,5 km considerando as estações tubo. Isso para Londrina significa mais paradas por quilômetro, mais consumo de diesel.
Em Londrina temos 100% de integração temporal, em Curitiba, esse sistema começou somente em 2025 e em algumas linhas. Curitiba não tem benefícios aos motoristas como vale alimentação e anuênio.
O sistema de transporte público de Londrina opera com ITS (Intelligent Transport Systems) em 100% da frota, integrado ao Centro de Inteligência Operacional (CIOP) — uma parceria inédita no Brasil entre concessionárias e poder público."
Frota:
