Sei que este periódico, além de ser, como diz o próprio chefe de redação, o MELHOR JORNAL DE CURITIBA, também pode sentir brio e orgulho por ser progressista, isto é, avançado, empreendedor, florescente e civilizado.
Sei também que este ano foi uma verdadeira loucura e quando piscamos os olhos já estávamos em dezembro com a cidade tomada por decorações e atividades natalinas. E é claro que existem aspectos do Natal meramente bipolares, ou seja, eufórico/melancólico, ansioso/depressivo, grandes planos/frustração (sobre isto consultar crônica de autoria deste seu criado chamada "Maldita Dezembrite", publicada no outro jornal com o qual também colaboro).
Admito que o Papai Noel bonachão, carismático, barrigudo e vermelho, ao contrário de ser um velho comuna, pode mesmo que não passe de um dos produtos melhor realizados do "Das Kapital" criado, segundo a lenda (pesquisar mais a fundo) pela marca Coca-Cola. Por que e para quê? Vender e lucrar mais, por óbvio. Ou seja, para aqueles que têm o senso crítico aguçado, aquilo tudo que a figura do bom velhinho gorducho, de cabelos e barbas brancas, premiando crianças pelo bom comportamento deveria inspirar, parece evocar apenas remotamente o caridoso, fazedor de milagres, portanto, canonizado bispo cristão São Nicolau.
Admito ainda que é um despautério, um despropósito adentrar de bom grado em qualquer shopping Center nessa época do ano, com suas promoções de fachada e filas estressantes, ainda mais se for para tirar foto em família com o Noel oficial do centro de comprar que, no final das contas, concede-nos trinta segundos de sua sacuda atenção mais uma balinha Sete Belo Framboesa, para em seguida recebermos a facada de uma linda Duende perguntando se queremos imprimir ou receber pelo WathsApp a foto.
Ok ok ok (um beijo Gilberto Gil), se bem que (pelo menos é assim que sinto), apesar dos pesares, sobrepaira no ar aquilo que, com alguma boa vontade, podemos chamar de o verdadeiro espírito natalino que, no meio dessa confusão toda, manifesta-se de formas mais ou menos sutis.
Com nossa família, por exemplo (a destacada Família Felipeto conforme nos batizou Giovana Madalosso — conto a história em outra oportunidade), o verdadeiro espírito natalino pode ser facilmente reconhecido em nossas caras sorridentes na sequência de fotos que temos com o mesmíssimo Papai Noel oficial (o sacudo da Sete Belo) do shopping. Na primeira imagem, de 2021, estamos eu, Lívia e Maria Clara com cinco aninhos. Na segunda, eu, Lívia e o barrigão dela de grávida mais a Maria Clara. Na terceira, eu, Lívia, Maria Clara e Antônio já com um aninho. Na quarta, eu, Lívia, Maria Clara com oito anos já e Antônio com dois. Tudo bem que são fotos feitas no esquema loucura de final de ano da família classe média. Mas, veja, estamos juntos e felizes nas fotos. E são fotos que se convertem de certo modo em documento revelador da constituição do nosso núcleo familiar, do seu estabelecimento, da permanência da aliança e do crescimento que já tivemos através desses poucos anos. Significa muito para nós.