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Quando fui Jim Hawkins

Por Admin
Quando fui Jim Hawkins
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A multidão se acotovela entre as barracas da Feira do Livro de Lisboa. Desço a ladeira do parque em direção à rotunda do Marquês de Pombal, decidido a fugir da confusão. Me arrependi de ter vindo. Livros não combinam com este clima de supermercado. Precisam de silêncio, de espaço para expandir seu encanto. Ao contato de tantas mãos apressadas, murcham como tomates. Outro dia eu volto, digo, sabendo que não virei.

De passagem por um estande de livros infantis, vejo uma mulher exibir para o seu filho os exemplares grandes, coloridos, com poucas palavras e muitas ilustrações. Ela coloca um após o outro diante dele, aguarda sua reação. O garoto, de uns cinco anos, olha-os sem muito interesse. A mãe então abre um livro com pop-ups, essas ilustrações que saltam em três dimensões para fora das páginas. O filho ergue molemente o braço e aponta a traquitana, como quem diz: “Prefiro este, já que você quer levar alguma coisa”. Declarando-se satisfeita, a mulher compra o livro, sorrindo aliviada para a vendedora.
Saio da feira pensando nessa insistência, nessa vontade imposta aos filhos para que amem os livros. É um valor herdado que se quer passar adiante. Mas normalmente é um valor de papagaio, de quem não entende nem pratica o que está dizendo. Se a maioria esmagadora das crianças não vê os pais lendo (como mostram as estatísticas), por que haveria de ler? Não há como enganá-las: as crianças sabem que aquilo é uma espécie de bule de porcelana da avó que os adultos cultuam, mas não usam. E assim que saírem da escola, depois de serem obrigadas a ler por professores e professoras desencantados com o modelo educacional impositivo, abandonarão a literatura, talvez com alívio. Exatamente como fizeram seus pais. Os pequenos sabem, desde o princípio, que ninguém bebia do bule. Era apenas um objeto de museu, nunca usado para matar a sede. Mais do que isso, percebem que aquela sede específica já não existe.

A caminho de casa, pelos túneis que o metrô percorre veloz em direção ao Terreiro do Paço, me lembro do professor Paulo Mikoski. A imagem fugidia do seu rosto rosado de polaco surge sob a minha própria imagem refletida na janela. Posso ver os agudos olhinhos azuis sob os cachos loiros que rareavam na nuca. Sou bem mais velho agora do que ele era naquela época, na Curitiba da década de setenta, quando eu tinha uns nove, dez anos. Paulo era um homem baixinho, sua voz era clara, rascante, um pouco anasalada. Exalava paciência em meio à dispersão da turma, os alunos dormentes ou jogando papeizinhos uns nos outros enquanto ele tentava aclarar para nós os monótonos mistérios da análise sintática. Nunca se sobressaltava. Sua inteligência parecia supor e conformar-se de antemão com o pouco resultado que obteria daquela entomologia de uma língua viva. Paulo Mikoski me marcou profundamente porque um dia – perdido no tempo como tábua no mar – jogou a toalha.
Naquela manhã, como sempre, ele entrou na sala usando a calça vincada de tergal marrom, a camisa de golas moles, meio surrada, com aquele ar de resignada civilidade que ainda me comove. E simplesmente não deu aula. Reuniu quatro carteiras vazias num quadrado. Sem dizer nada, jogou ali uns livros que havia trazido numa caixa.

– Quem quiser lê. Quem não quiser, por favor faça silêncio.

Pegou um dos livros, sentou-se à sua escrivaninha e passou a aula inteira debruçado sobre as páginas. Para minha surpresa, ninguém fazia barulho. Algo estava fora da ordem, havíamos entrado num território desconhecido. Uma aluna foi buscar um livro, depois outro a imitou. Não sei dizer ao certo, mas quase metade da turma se pôs a ler. Os outros brincavam com os dedos, desenhavam nos cadernos, mas permaneciam em silêncio.

Fui atraído pela capa que mostrava um menino ao lado de um pirata com uma perna de pau, os dois em frente a um baú semienterrado na areia. Era "A Ilha do Tesouro", de Robert Louis Stevenson. Eu nunca havia lido um livro. Não fazíamos isso lá em casa. Os adultos trabalhavam ou viam tevê, as crianças corriam pelos terrenos baldios do Capão Raso, brincavam na rua e no quintal, se batiam pelos cantos da casa. Os únicos livros que eu conhecia eram os tomos da Enciclopédia Delta-Larousse, mas estes só serviam para enfeitar a estante da nossa sala, estáticos e intocados como a bailarina de vidro azul e a coruja de bronze.

Me sentei, abri o livro, hesitante, sem saber bem como me comportar diante dele.

O escudeiro Trelawney, o Dr. Livesey e todos os outros senhores me pediram para escrever sobre todas as particularidades da Ilha do Tesouro, do começo ao fim, sem deixar nada para trás a não ser o local da ilha, e isso porque ainda há ali tesouros não encontrados, e por isso levanto minha pena no ano da graça de 17…

Quando a aula acabou, eu havia avançado apenas dois capítulos. Precisei reler muitas frases, algumas porque não compreendia, outras porque queria entender seu encanto. Era inacreditável que alguém pudesse fazer aquilo comigo. Eu estava deslumbrado. Durante quarenta minutos me vi morando com meu pai doente na estalagem Almirante Benbow, conheci um pirata terrível que bebia rum, tinha as unhas quebradas e um “corte de sabre cruzando uma das bochechas”. Porque, sim, a coisa era feita de um jeito tal que eu era o menino Jim Hawkins, o protagonista. O medo e a coragem dele eram meus, pelo menos. Além disso, sem ter consciência do que me acontecera, eu estava feliz por ter dado um salto para fora das asperezas da realidade. Pela primeira vez, havia provado o prazer de frequentar uma elaborada arquitetura imaginária, um templo de palavras concebido por um deus inventivo e generoso. Mas o sinal do recreio soou, saí correndo para brincar. Esqueci o livro, que o professor não voltou a trazer para a escola. A luminosa desistência de Paulo Mikoski foi uma janela aberta pelo seu cansaço, logo fechada pela obediência ao programa escolar. Uma pena. Não me lembro de nenhum livro que ele leu ou indicou depois. Só sobreviveu na memória aquele que o antimestre deixou flutuar em minha direção, como uma pequena ilha grávida de aventuras.

Hoje, por esses trilhos que atravessam túneis e tempos, percebo que Stevenson usou de um recurso sutil para explicar a literatura às crianças. Disse que não poderia revelar o local da ilha, porque ela guardava tesouros escondidos. Mas sugeria com isso que a riqueza dos livros está em se situarem em algum lugar indefinido, na pródiga e mutante geografia das nossas navegações internas.

Aliás, penso, subindo as escadas da estação, nunca terminei de ler "A Ilha do Tesouro", o livro emblemático que despertou meu interesse por todos os outros. Podia fazer isso agora. Por que não? Seria até curioso: um menino começa a ler; meio século depois, um senhor de cabelos brancos termina a história. Os dois são a mesma pessoa. A diferença entre eles é que, na narrativa aflorada pelo menino, ainda faltava um pirata: aquele professor pequenino, de cicatriz na alma, que o libertaria da obrigação de ler. O homem que largou um livro à sua frente como se fosse uma garrafa de rum.

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