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Raphael de Jesus fala sobre "Um casamento artificial", em exibição no Djanho!

O curta-metragem selecionado para exibição no Djanho! Festival Internacional de Cinema Fantástico é uma ficção científica distópica

Por Admin
Raphael de Jesus fala sobre "Um casamento artificial", em exibição no Djanho!
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"Um casamento artificial", selecionado para exibição no Djanho! Festival Internacional de Cinema Fantástico (de 31/10 a 6/9, em Curitiba), é o terceiro curta-metragem de Raphael de Jesus, que assina a direção e o roteiro. Com duração de um pouco mais de 14 minutos, o filme é uma ficção científica distópica, em que as mulheres foram substituídas por androides, o enredo mostra uma esposa-robô passando por um relacionamento abusivo nas mãos do marido violento. No elenco estão Natalie Fronczak e William Barbier.

De Jesus tem 30 anos de idade e estudou cinema na Universidade Estadual do Paraná (Unespar), hoje, trabalha com publicidade e em projetos culturais, e tem filmes selecionados e exibidos no Brukivka - International Film Festival, no Petit Pavé - Festival de Cinema Independente de Curitiba, e no Cinemaz, de Minas Gerais. 

Em entrevista ao Plural por WhatsApp, ele fez um flash back na sua história para contar que o caminho até a carreira de cineasta começou durante um momento de dificuldades financeiras, quando descobriu "um outro cinema" nas andanças com seu pai. Mais adiante, também foi o pai que deu um empurrãozinho ao falar "decidi que vou deixar você fazer cinema". 

De Jesus também comentou sua relação com os filmes e revelou, entre outros pontos de vista, por que considera “Que Horas Ela Volta?” (2015) "previsível e maniqueísta" em certa medida. E, é claro, falou sobre "Um casamento artificial". Confira a seguir. 

Leia mais: Descubra tudo o que há de mais horripilante no Djanho! 2024

Por que você decidiu ser cineasta? 

Foi o processo de uma vida. Desde a minha infância recebi muito incentivo cultural por parte dos meus pais e cresci rodeado por filmes, tendo muitos VHS e frequentando locadoras. Três eventos específicos contribuíram para a minha decisão: quando eu tinha 10 anos, minha família passou por um grave período de dificuldades financeiras, e meu pai me levava e buscava da escola todos os dias a pé. Nessas andanças, meu pai conversava muito comigo sobre os mais variados assuntos, principalmente sobre os filmes que ele via em sua juventude, saindo de Campo Largo para frequentar cinemas em Curitiba, e isso me fez perceber que existia um “outro cinema”, para além dos desenhos da Disney que eu costumava assistir. 

Fiquei com esse sentimento por muitos anos até que, quando tinha 15 anos, fui estudar no Colégio Opet, onde havia diversas modalidades eletivas, dentre elas teatro. Nessas aulas eu comecei a desenvolver a ideia de que poderia me tornar um ator, mas como eu sempre ficava planejando muito as nossas cenas, meu pai falava que eu acabaria me tornando um diretor e eu sempre ficava bravo com ele, contrariado. No fim do curso, senti que o meu professor não estava me dando muitas oportunidades em detrimento de outros alunos, e acabei participando de uma peça em um papel ínfimo, no Teatro Fernanda Montenegro, só porque o meu pai o cobrou. Depois disso, jurei que me tornaria diretor para que ninguém me negasse uma oportunidade.

Por fim, minha decisão ficou mais madura quando, aos 16 anos, fui estudar em outra escola e conheci um colega que faria cinema na FAP (atualmente Unespar). Eu estava em dúvida se cursaria administração ou não, mas já estava vendo mais filmes e me interessando cada vez mais por cinema. Num belo dia, meu pai me surpreendeu trazendo os livros necessários para o vestibular e ele me disse “decidi que vou deixar você fazer cinema”. E assim começou uma história que dura há 14 anos. 

“Um casamento artificial” é o meu segundo filme finalizado, vou lançar em dezembro o drama de fantasia “A Aranha-Marrom”, com Giuly Biancato e Renet Lyon no elenco, e filmarei essa semana o meu quarto filme, o drama sobre deficiência “Mundo Cruel”, com Pedro Garcia e Nathalia Garcia no elenco. 

Nos agradecimentos de "Velho demais para ser um gênio", Olavo de Carvalho é citado. Qual o motivo? 

Porque fui aluno dele e muitos dos seus ensinamentos fizeram diferença na minha vida. Destaco um a respeito do Método da Confissão, tal qual no catolicismo, que me permitiu ser uma pessoa mais madura e sincera, principalmente comigo mesmo. Praticar isso ao longo dos anos me fez ponderar os aspectos positivos e negativos da minha vida, meus acertos e erros, e encontrar soluções nos momentos de desafio. Com isso, pude me tornar mais produtivo como artista e perseverar na realização dos meus filmes. Recomendo a todos que tenham curiosidade. 

Como nasceu a ideia para "Um casamento artificial"? 

O filme nasceu como um “projeto de encomenda”, a partir do edital de Ações Culturais Afirmativas, da Fundação Cultural de Curitiba. Dentre as várias opções de temas, acabei escolhendo “promoção dos direitos das mulheres” porque achei que teria algo a dizer e que combinaria com minha proposta de cinema no gênero drama. 

Como eu vinha na toada de também trabalhar no gênero fantástico e utilizando efeitos práticos, muito em função do meu outro filme, “A Aranha-Marrom”, que será lançado ainda neste ano, resolvi desenvolver algo parecido, até mesmo como uma forma de me destacar no edital. 

Inicialmente, minha ideia seria fazer um drama chamado “A Medusa”, no qual a criatura da mitologia grega teria desistido de transformar os homens em pedra, anulando-se em um relacionamento abusivo. Achei que seria muito difícil fazer os “cabelos de cobra” em efeitos práticos com a pouca verba que o edital oferecia e então procurei uma outra solução que mantivesse o sentido do que eu queria. Acabou me ocorrendo que a protagonista poderia ser uma androide e essa ideia foi o suficiente para detonar a criatividade em mim: levei mais ou menos um dia e meio para desenvolver a primeira versão do roteiro e entregar para o edital que fecharia na mesma semana. 

Atualmente, o filme está em sua jornada pelos festivais, tendo sido premiado com a Melhor Montagem no Cinemaz 2024, em Varginha, Minas Gerais. Em novembro, ele fará sua estreia em Manaus, no Manaus Filme Fantástico.

Por que a escolha pelo gênero ficção científica? 

Escolhi a ficção científica como um meio de enriquecer o meu retrato sobre o tema social da violência doméstica, explorando mais camadas para além do óbvio. 

Nesse sentido, um filme que é uma referência negativa para mim é “Que Horas Ela Volta?”, da diretora Anna Muylaert. Na minha opinião, o filme faz um retrato bastante previsível e maniqueísta da vida de uma empregada doméstica, pobre e negra, rejeitando se aprofundar em outros elementos que poderiam torná-lo ainda mais interessante e original. 

Isso tem certa frequência na história do cinema brasileiro, mas não tanto na do cinema mundial. Não objetivo com o cinema promover conscientização ou qualquer tipo de mudança visível, mas sim representar a experiência humana no que há de mais universal, criativo, e por vezes até mesmo provocativo. O mundo é muito vasto e o ser humano muito rico, portanto, quando criamos abordagens para além do padrão, aumentamos o nosso imaginário sobre os diversos assuntos e podemos formular visões mais precisas a partir disso. É o que acredito e procuro seguir esse princípio no meu trabalho. 

Falar sobre um relacionamento de um homem violento e sua esposa robô, mesmo que em um futuro ficcional, pode resultar em diferentes leituras. Qual foi a motivação para assumir o risco de colocar isso em primeiro plano sendo um homem? 

Concordo que essa abordagem possa gerar diferentes leituras, era o meu objetivo desde o princípio. No filme, Karen, a esposa-robô, mais do que representar os dilemas vividos por mulheres que sofrem violência doméstica, demonstra ser muito mais humana do que seu marido Francis, que é um ser humano de verdade. Conforme a narrativa avança, ele vai perdendo essa humanidade ao se entregar à violência, mas por outro lado, no contexto do filme, que é de uma distopia na qual as mulheres foram substituídas por androides, ele representa a tentativa de se manter racional em um mundo louco, e suas agressões se tornam um meio de lidar com isso, já que um robô ainda é uma máquina, e não é muito diferente de uma torradeira, por exemplo. 

Acredito que essa abordagem trouxe maior riqueza na construção desse drama. Se eu tivesse feito de outro modo, acredito que o filme seria bastante óbvio e com personagens rasos. Como resultado, obtive um filme brutalmente realista sobre violência doméstica, mas também sobre outros assuntos como o avanço da inteligência artificial e da robótica, bem como sobre a perda do que é ser humano.

Eu não compartilho da visão embutida na sua pergunta sobre levar em consideração o fato de eu ser um homem na escolha desse tema. Como artista, acredito que devemos ser livres para expressar o que temos em nossos corações, e ao retratar o assunto do filme, demonstro que tenho coragem e capacidade de sair de minha zona de conforto e abordar com propriedade e criatividade temas de interesse público. Até mesmo porque entre os homens a visão pode mudar de um para o outro, mas uma coisa você pode ter certeza: em um filme do Raphael de Jesus, você sempre terá a minha visão sincera e honesta. 

Quais são suas principais referências no cinema e qual o filme da sua vida? 

Quentin Tarantino é o meu diretor preferido, principalmente por ser um grande cinéfilo e fazer disso o centro do seu cinema, além da emoção que tenho quando assisto aos seus filmes. Outra grande referência pra mim, não só como cineasta, mas como pessoa é Martin Scorsese, que além de outro grande cineasta-cinéfilo, possui um desejo de ser pessoal e se expressar através do cinema. 

No tipo de filmes que faço, que têm ido em direção ao gênero dramático, tenho algumas outras referências como: Ingmar Bergman, John Cassavetes, Elia Kazan, Lars Von Trier, Carl Theodor Dreyer e Robert Bresson. 

E o filme da minha vida é o drama “Trinta Anos Esta Noite” (“Le Feu Follet”, 1963), do diretor francês Louis Malle.

Djanho!

Mostra Internacional e Interbairros de Cinema Fantástico de Curitiba, piá!

Quando: entre 31 de outubro e 6 de novembro
Onde: Cine Passeio (Rua Riachuelo, 410); Cineplus Jardim das Américas (Shopping Jardim das Americas, na Avenida Nossa Sra. de Lourdes, 63); Cinemateca de Curitiba (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174); IML – Cineclube da Polícia Científica (Avenida Visconde de Guarapuava, 2652); Cine Cadeião/Museu da Imagem e do Som (Rua Barão do Rio Branco, 395); e Teatro da Vila (Rua Davi Xavier da Silva, 451. CIC). Sessões com ingressos à venda por R$ 6, e exibições gratuitas.

Outras informações e programação completa no site do festival, e também a seguir.

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