A Orquestra Sinfônica do Paraná começou a fazer uma turnê pelo interior do estado em que, pela primeira vez em quatro décadas, dedica parte de seus concertos à música sertaneja. Serão cinco apresentações com o repertório popular. As duas primeiras já ocorreram em Guarapuava e Cascavel. As próximas duas serão em Maringá e Londrina. A turnê se encerra em Curitiba no dia 5 de junho.
Desde que Ratinho Jr. (PSD) chegou ao governo, circulava pelos bastidores do governo a ideia de fazer "concertos sertanejos". Em parte para agradar o governador, um sujeito que parece se interessar unicamente por cultura popular. Em parte porque aparentemente seria uma boa jogada política: usa-se um ativo do estado para agradar a população, algo útil especialmente em ano eleitoral.
Enquanto Monica Rischbieter esteve à frente do Guaíra, conseguiu segurar a proposta; mas ela caiu, e logo em seguida a ideia andou. O regente Carlos Prazeres foi encarregado do programa, que inclui desde canções quase centenárias, como "Luar do Sertão", até "Infiel", de Marília Mendonça. Há também "No Rancho Fundo", de Ary Barroso (popularizada por Chitãozinho e Xororó), e uma canção de Zezé di Camargo & Luciano.
A assessoria de comunicação do governo enviou um texto para os jornais comemorando o resultado das duas primeiras apresentações da Orquestra Sinfônica do Paraná. "Público vibra", diz o texto, informando que a plateia cantou junto e foi inclusive regida por Carlos Prazeres.
Ataque à cultura
A nova atribuição dada à Orquestra Sinfônica do Paraná, de tocar música popular em praças públicas à beira do período eleitoral, não surpreende nem é um ato isolado. Desde o início do atual mandato, o governo Ratinho Jr. deixou claro o seu desprezo pela cultura em geral e pelas suas formas eruditas em particular.
Já na formação do governo, veio a extinção da Secretaria da Cultura, transformada num departamento da Comunicação. A ocupação dos cargos na minguada área da cultura deu sequência ao desmonte. Quem trabalha no ramo sabe que boa parte da administração cultural é prerrogativa de um militar com patente de capitão.
Tevê e rádio
Em seguida veio a morte do formato tradicional da tevê educativa. Deixada sem programação por meses, voltou como um canal dedicado ao turismo. Porque, afinal, já tinha ficado claro que a cultura não interessava. O veículo irmão, a rádio, foi sendo sucateado aos poucos, com a eliminação de todos os programas de fato educativos, as horas dedicadas à música clássica e ao jazz. No final, ainda veio a demissão em massa dos funcionários.
O próximo passo do governo foi intervir no principal centro cultural do estado, o Guaíra, removendo sua diretora. Monica Rischbieter, que por seus méritos sobreviveu a várias gestões, se opunha às práticas populistas da administração e se recusou a compactuar com o modo de distribuição das verbas da Lei Aldir Blanc.
Orquestra Sinfônica do Paraná
A orquestra é provavelmente o maior ativo cultural do estado. Foi fundada por José Richa em 1985. Assim como toda grande cidade do mundo, de Berlim a Nova York, de Viena a São Paulo, a capital paranaense passou a ter concertos regulares de música sinfônica. E isso com uma orquestra que, mesmo enfrentando a má vontade de vários governantes, está à beira de completar quatro décadas de bons serviços prestados.
Manter uma orquestra é caro, mas em todo o mundo civilizado se chegou à conclusão de que isso traz benefícios imensos. A população ganha acesso a três séculos de música orquestral, conhece um legado cultural importantíssimo e se vê conectada ao universo das artes. Criam-se empregos, reúnem-se plateias, a cidade sobe um degrau civilizatório.
Dinheiro
O ponto principal de haver orquestras estatais é que esse tipo de música não tem sustentação econômica. Se dependesse da iniciativa privada, provavelmente nenhuma cidade brasileira teria uma orquestra estável. É o contrário do que ocorre com a música popular. O Estado não precisa financiar uma banda de rock, de reggae ou de música sertaneja porque esses gêneros, sem incentivo, já lotam arenas, casas de show, pedreiras, mesmo com ingressos a R$ 300.
Fazer com que uma orquestra de dezenas de músicos se desloque pelo Paraná, com custos de transporte, hospedagem, alimentação, além do pagamento dos salários, é algo que só se justifica se for para cumprir o propósito para o qual ela foi criada. Para tocar música popular é uma insanidade indesculpável.
Condescendência
A Orquestra Sinfônica do Paraná não é o grupo certo para tocar Chitãozinho e Xororó. Não porque a música de duplas sertanejas seja ruim; simplesmente porque "Evidências" foi feita para ser cantada de uma certa maneira. Achar que "Romaria" precisa de uma sinfônica completa é não entender a beleza do que Renato Teixeira fez – além de parecer condescendente com a música dele, como se fosse preciso o "carimbo" erudito para validar essa arte.
A condescendência maior é com o público. É como se você tivesse desistido da capacidade das pessoas de acessar a música clássica. O governo do Paraná está dizendo para as pessoas que elas não têm condições de ouvir Mozart, não merecem escutar Beethoven, não estão à altura de Villa-Lobos. É como se os habitantes do Paraná estivessem fadados a nunca sentir certos prazeres – ao contrário da famosa rainha, tira-se o brioche e manda-se que o povo coma sempre o mesmo pão.
Zombaria
A ideia de usar uma orquestra de músicos eruditos é um desplante, uma zombaria com o contribuinte, que paga por lebre e leva gato no lugar. Os impostos que pagamos para gastos em cultura estão todos os dias sendo desviados pelo atual governo para fazer populismo na tevê estatal, na rádio, no Guaíra e, agora, na orquestra.
Em quatro anos, pouco sobrou de cultura financiada pelo governo do Paraná. O atual governador, até por saber manipular a população com esses gestos rasteiros, está prestes a conseguir mais um mandato. Se for o caso, é melhor dar adeus ao dinheiro que pagamos para manter a área cultural e reservar um dinheirinho a mais – depois de ver nosso dinheiro desviado, teremos de pagar para ouvir música em serviços de internet, para assistir a espetáculos em streaming e para substituir nossa rádio local por podcasts.
Porque uma coisa, nesses três anos e meio, já ficou clara. Ratinho Jr. e cultura não combinarão jamais.