Esta matéria integra série especial sobre coletivos femininos que o Plural publica ao longo do Mês da Mulher
Início dos anos 2000, Alaerte Martins cruzava salas de reunião sobre políticas públicas na área da saúde como a única mulher negra presente. "Sempre eu era a única cara preta, então precisava criar a fundação para ter mais mulheres negras em todos os espaços de discussão de políticas públicas", recorda. Assim, de discussões sobre racismo, gênero e ações antes consideradas isoladas e com Alaerte como uma das fundadoras, nasceu, em 5 de fevereiro de 2006, a Rede de Mulheres Negras do Paraná (RMN-PR), autônoma, sem fins lucrativos, unindo ativistas de todo o estado em saúde, educação, cultura, direitos humanos e renda. Duas décadas depois, responde às suas perguntas originais – quem somos, o que queremos, para onde vamos?
De meia dúzia a presença nacional
Tudo começou com uma meia dúzia de mulheres de grêmios e coletivos, articulando ações isoladas pós-Lei 10.639/2003. "Na fundação, éramos poucas pensando na rede; hoje somos mais de 50 ou 60, felicíssima por isso", celebra a fundadora. A Oficina de Gênero e Raça, anual desde então e que em 2026 ocorreu nos dias 29 de janeiro, 2, 6 e 7 de fevereiro, virou espinha dorsal: forma lideranças e promove encontros e debates fundamentais. “Cada uma aqui presente [na oficina] é liderança em seus territórios”, ressalta Cleci Martins, coordenadora executiva da Rede.

Outra membra, Simone Pereira entrou em 2007 como contadora da equipe, recém-demitida após licença-maternidade. "Antes, lutávamos sozinhas, e a Rede resgatou minha autoestima, abriu portas profissionais e sociais. Hoje minha filha é associada e meu filho presta serviços", conta. O racismo velado foi uma barreira inicial, como destaca: "Há um medo de mulheres negras se fortalecerem, somos vistas como ameaça quando deixamos de ser subjugadas.”

Ocupar poder: “o que queremos”
A missão da Rede é clara:. "Nosso grande objetivo é ter mais mulheres negras nos espaços de poder, como nossa primeira deputada federal negra, Carol Dartora", afirma a fundadora. A deputada pioneira esteve presente na comemoração de 20 anos da Rede e encarna a resiliência: "Dói ser a única na sala; ninguém entende denúncias racistas em reuniões com engenheiros brancos. Meu objetivo é pragmático: poder e dinheiro para mulheres negras.”
Para as participantes, a Marcha das Mulheres Negras de 2015 é uma das principais conquistas. Organizada pela ativista Nilma Bentes, realizada em 18 de novembro em Brasília, reuniu e conectou a RMN-PR a mais de 100 mil mulheres de todo o Brasil contra o racismo, a violência e em defesa do bem viver. A idealizadora participou presencialmente da celebração dos 20 anos da Rede. “Acho que só a presença da Nilma aqui mostra o respeito que a gente tem das organizações a nível nacional”, enfatiza a fundadora Alaerte.

Parindo militância e coletividade: “quem somos”
"A Rede parindo novas militantes, ativistas, educadoras da saúde para construção política e se verem como sujeitos", define Camila Matos, socióloga e coordenadora adjunta da RMN-PR. Desde 2006, a Oficina de Gênero e Raça anual capacita mulheres negras, apoiando-as como lideranças que pressionam e realizam políticas públicas. Para a socióloga, o processo de “parir” ativistas é constante e cíclico, pois cada mulher negra ali presente teve sua identidade e força “parida” por outra mulher negra. “O trabalho da Rede é esse de fortalecer mulheres para que a gente possa atuar nos espaços em representação tanto da construção da política e também para que a gente consiga se ver como sujeitos políticos, não só na centralidade das ações, mas a gente vai lá e faz”, conclui.
A celebração também foi espaço de encorajamento e identificação, não apenas das lutas, mas também das conquistas. "Continuidade é bem viver, reparação, e a deputada trouxe isso, parindo ativistas como eu, aprovada em mestrado por cotas", completa Camila. Ela é um dos exemplos desse “ciclo de partos”, o foco de sua pesquisa no mestrado é na linha de Diversidade, Diferença e Desigualdade Social que converge na representação de corpos negros.
Horizonte daqui mais 20 anos: “para onde vamos”
“Nossa luta é a vida toda”, sintetiza a fundadora. Os sonhos não são só ambiciosos, mas fazem parte do combate contínuo vivenciado por todas as participantes. Alaerte reconhece as adversidades: “Ainda é gigante o tamanho do nosso desafio do povo negro do estado do Paraná. As pessoas ainda não estão mobilizadas. Infelizmente a Rede ainda hoje é a única organização do movimento negro estadual”, mas deseja que não só que a Rede siga atuante, como cada vez mais possua mais parcerias e membras. Simone espera ver ainda mais meninas e mulheres presentes. Carol Dartora deseja: "Mulheres negras representadas, sem ouvir 'não é capaz' pela aparência". "Construir felicidade é afirmação política", resume Cleci. Camila argumenta que as eleições deste ano são um fato decisivo não só para a continuidade da Rede, mas para a ampliação das políticas afirmativas no Brasil.
