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Sobre a direita francesa, o papa num navio e a melancolia atual

Com "Aniquilar", Michel Houellebecq anuncia sua aposentadoria e segue cortante como sempre

Sobre a direita francesa, o papa num navio e a melancolia atual
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Sei que não se trata de um lançamento, mas como deixei a leitura desse livro para um momento propício, vamos a ela. Há livros que tenho medo de ler porque sei que vou amar.

Tenho uma listinha de autores de “altas literaturas”, que escreveram obras entre o final do século XX e o XXI e Houellebecq está nesta lista. Nem creio que seja caso de dizer “gosto ou não dele” ou caso de lembrar que ele é um autor polêmico porque esse discurso sobre as polêmicas dele – se não explicadas – diz menos dele do que se poderia dizer sobre sua literatura. A mídia precisa sempre dizer alguma coisa se não consegue aprofundar as discussões literárias de um autor.

Deixando essas questões de lado, a gente poderia se perguntar se “Aniquilar” é realmente tipo um testamento do autor. Se for, é um testamento bastante estranho – e com uma técnica de escrita para lá de incrível – de um autor muito acima dos escritores de seu país, no “seu tempo”, mas que, diferentemente dele, caíram ou no gosto popular ou no gosto das grandes premiações: Le Clézio, Modiano, Ernaux, Gao Xingjjian. Outra hora posso falar de cada um deles, mas hoje é dia de dar uma olhada mais de perto em “Aniquilação”.

Há uma cena em “Aniquilar” bastante interessante, por vários motivos. Líderes do mundo todo se agrupam num porta-aviões para prestar homenagem a vítimas de um atentado terrorista. Um navio com aproximadamente 500 refugiados tinha sido atacado no Mediterrâneo. O papa também estava presente na cerimônia.

A cena não dá o tom do livro (já explico a razão) mas é bastante relevante no todo da produção literária de Houellebecq. Em vez de solucionarem o problema dos refugiados nos seus respectivos lugares de origem, lugares problemáticos, no geral, devido à antiga presença europeia (e a atual presença americana), os líderes mundiais (alinhados à esquerda ou à direita) preferem jogar rosas no mar, ao som da Nona de Beethoven, que serve para uma missa e também para a cerimônia dos Jogos Olímpicos em qualquer lugar do planeta. Em vez de solucionarem o problema dos atentados praticados por eles mesmos (afinal, eles são a fonte primeva), preferem lançar mísseis à população indefesa da Palestina, por exemplo, com as desculpas esfarrapadas de sempre. Houellebecq, como sempre, não traz ironias camufladas. Ele rasga o verbo mesmo. Mostra a breguice e a falsidade desse tipo de evento, seja na França, nos EUA, em Hiroshima ou em Varsóvia.

Como ocorreu em outras vezes, a escrita de Houellebecq parece ter tons proféticos. De todo modo, ali, naquele porta-aviões, como uma “nau dos loucos”  (ele não economiza referências) está todo o problema do mundo: seus líderes, notadamente os europeus. E o mais doido, de tudo que li até agora, é que a crítica insiste em falar no livro “mais introspectivo” ou “mais humano” de Houllebecq. No meu entender, além de satírico, é o mais complexo e ainda o que dá, mesmo, mais trabalho numa tentativa de explicação. Os dois anteriores, perto desse, ficam como romances desenhados, quase óbvios – embora nada seja óbvio se se trata de Houellebecq.

Outro ponto que merece atenção é que, nos agradecimentos, o autor disse que se aposentou e que “Aniquilar” é seu último romance. Olha, se eu fosse ele, depois de Clézio, Gao Xinjiang, Modiano e principalmente Annie Ernaux, eu me aposentaria mesmo. O maior escritor vivo da França preterido por escritos tão ok – ou muito bestas mesmo, mas tidos como geniais, únicos, nunca antes feitos – é de levar qualquer um à aposentadoria. Claro que, para Houellebecq, toda literatura pós Balzac ou Dostoiévski é uma literatura que precisa se olhar no espelho e perguntar o que está fazendo da sua vida, mas essa é uma discussão para gente adulta e sóbria.

E pá: todas as ironias das complexas produções literárias de Houllebecq, que engana a maioria dos leitores, sempre parecendo escrever sobre uma coisa e mostrando outra, um dos segredos, aliás, das altas literaturas. Há um trecho incrível, uma fala meio longa de um político muito poderoso. Seu interlocutor nem presta atenção no que ele diz, mas o leitor pode acompanhar seu raciocínio. Lá pelas tantas, o político diz que Hitler foi um tipo de visionário. Loucura, certo? Um dos homens mais poderosos da política francesa, quase um centro-esquerda dizer algo assim. Mas, nesse momentos, é que Houllebecq aparece com maestria. Não é ele quem fala e eu diria que nem mesmo a personagem: é um discurso que deve rondar a cabeça de grande parte dos políticos franceses (mesmos os da esquerda) e que só pode surgir e ser verbalizado numa situação ou de muito álcool, de muita droga ou de muita intimidade (o caso, aqui).

Escritos desse tipo na boca de personagens de Houellebeq já o levaram aos tribunais da mídia... o que não quer dizer que o homem, o cidadão Michel Houllebecq, não tenha opiniões para lá de provocadoras. Mas em “Aniquilar”, não se engane, não é ele quem fala. Veja a situação política recente da França, com o crescimento cada vez maior de Marine Le Pen, por exemplo, uma política que expulsou o próprio pai do partido – num joguinho para lá de combinado – para simplesmente manter o poder que conquistaram, o que não quer dizer que grande parte do eleitorado francês não tenha os mesmos ódios de Le Pen, pai, no coração. E Houellebecq está de olho não apenas nos políticos franceses. Ali perto, onde o nazismo floresceu, cresceu, e se tornou o que se tornou, existe a figura quase absurda de outra política perigosa, Alice Weidel. É disso que “Aniquilação” trata, a começar pelo título.

O romance tem como título original “Anéantir”. Não há um correspondente direto em português, embora “aniquilar”, o verbo, seja muito bom, e muito melhor que o possível “anular”. Em francês, no entanto, a origem de “anéantir” é de “néant”, que em suas origens (do latim para o francês antigo) tinha o significado de “inexistência, ser inexistente”. No francês antigo, a palavra derivou, em formas dialetais, para designar um homem sem valor, um ser inútil e ainda mau. Claro que, em português, temos “nada” e até mesmo uma forma mais rara, que não vejo há séculos, “nadir” e expressões do tipo “ele é um nada”, mas a tradução era problemática mesmo. Houllebecq escolheu a forma verbal e não uma forma nominal, como se o verbo fosse, por si só, um imperativo. E é isso que ocorreu: um aniquilar de tudo.

E é o que o sujeito é, seja o homem comum francês que ele já descreveu tão bem, o artista, que deveria ser a antena da raça, o político (aqui mostrado com maestria), o acadêmico, o religioso (de todas as esferas de religiosidade)... Houellebecq passeou por toda a sociedade francesa, e, de resto, por todas as demais sociedades.

“Aniquilar” tem uma composição que a crítica poderia chamar de histórias paralelas, mas eu creio que seja uma história só, pois a história do homem comum serve de metáfora para a história de um país e vice-versa. A estrutura de escrita desse livro é perfeita. Humilhante.

Paul trabalha para o governo, seguindo os passos do pai, que trabalhou também. O pai sofreu um AVC e não pode responder mais pelas coisas, sendo que ele poderia revelar segredos interessantes das políticas interna e externa da França. Há atentados e uma conspiração internacional (direita? esquerda? “terroristas islâmicos”? uma versão dos doidos brancos americanos que explodem a si mesmos?) coloca em pânico os governos do mundo “civilizado”. Ao lado desse universo, ou melhor, dentro dele, estão os homens comuns, que amam, fazem sexo, comem, têm família, se suicidam, morrem de câncer. Então, o que resta mesmo dessa loucura toda? A resposta seria se clonar para a eternidade? A resposta seria deixar tudo se destruir sozinho? A saída seria largar tudo (a vida nas grandes cidades, por exemplo) e tentar uma vida alternativa numa comunidade mística? Houllebecq já passou por tudo isso, o que gera a impressão de que sua obra é um grande projeto estilístico, sendo os livros ligados entre si, numa grande comédia humana.

Mas, erudito, grande conhecedor da literatura, ele é debochado. Nos trechos “políticos” do livro, ele lembra autores dos anos 1950-70, como Graham Greene. Em alguns trechos, ele me lembrava John dos Passos ou ainda Eugene O´Neil. E se falo em “lembrar”, não me refiro à escrita (afinal, são duas línguas distintas) e sim à tentativa de John dos Passos, por exemplo, descrever um vasto painel político de sua época, e O´Neil o caos mental de seus personagens. Nos momentos em que há a conspiração internacional e conversas de políticos sobre os ataques, o leitor será remetido à literatura de consumo (nada contra Greene, que, aliás, aprecio muito) ou ao mais tonto roteiro de filme americano. Não posso provar, mas acho que ele estava tirando com minha cara nesses trechos.

Ao mesmo tempo, há momentos incrivelmente sensíveis (esses que fizeram a crítica crer num livro introspectivo e humano...); a doença do pai de Paul, a relação com a esposa, que começa péssima e caminha para uma reconciliação, o suicídio do irmão... tudo isso faz o leitor perguntar se está lendo o mesmo Houellebecq dos livros anteriores. É ele mesmo. Não tenha dúvidas. E ele está rindo de você e rindo da Annie Ernaux também. O mercado editorial francês merece essa tiração de sarro. O Nobel também.

A leitura é demorada, ok? São quase 500 páginas. Vale cada uma. Há poucos grandes escritores escrevendo no momento. Houllebecq é um deles. Melancólico. Mas a situação que vivemos agora é melancólica.

Tags: colunista

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