Praça Tiradentes. Os muito jovens sabem quem foi Tiradentes? Ainda ensinam sobre ele nas escolas? Ah, as escolas.
Praça Tiradentes. Ônibus e mais ônibus chegando e partindo, o “povaréu sonâmbulo” desembarcando e embarcando.
Todas essas pessoas levantaram da cama. Outros levantaram do chão, das calçadas sob as marquises. Manhã de bafo quente e gosto amargo.
Arredores da Praça Tiradentes. Muquifos da Cruz Machado, da São Francisco, da Saldanha Marinho. Trafiquinhas e usuários de crack. O vício a tirar tudo dessa gente. É possível acreditar que, por mais que tudo concorra de modo vertiginoso para isso, alguém entre eles não esteja derrotado? Sabe o quê? Venta e dói a avassaladora desigualdade. É melhor colocar chumbo no lugar? Duvido muito.
Praça Tiradentes. Povoada por pessoas necessitadas que usam de abordagens insistentes. Como exigir que sejam respeitosas? Os violentos receberão violência. A cidade tem suas leis subterrâneas explodindo na cara de todo mundo. Se estiver andando por ali, não dê mole não.
O novo piso da velha praça revela traços da vila de ontem, sob os vidros que refletem a ramada das árvores, tão antigas quanto os pinheiros e os ipês em suas floradas amarelas. São camadas do antigamente, de quando ali era o Largo da Matriz. Marco Zero da cidade que, depois de uma visita ao Paraná feita pelo Imperador Pedro II e sua comitiva, em 1880, passou a se chamar, vejam que original, Largo D. Pedro II. Anos mais tarde, já no período da República, passou então a ser oficialmente a Praça Tiradentes.
Na frente e nos arredores da Catedral. Catedral Basílica Menor de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. (Aproveitando a deixa, procurem o livro O Bispo Negro, editora Humaitá, de Adegmar da Silva, mais conhecido como Kandiero, no qual há um brilhante diálogo durante vigília religiosa na igreja, quando a personagem do Bispo confronta a audiência, questionando mitos e símbolos estabelecidos e expondo injustiças históricas).
Mas nem tudo são dores na Tiradentes. Você conhece o Valdir e sua apetitosa pipoca?
Amigo, você já provou a Pipoca do Valdir? O chef pipoqueiro fica bem na frente da Nissei, com seu carrinho elétrico movido a energia solar e a badalados dos sinos da Basílica.
“Oi, bom dia, vizinha, doce ou salgada? Salgada, beleza. Bastante bacon, certo? Leve a sacolinha também pra você ter direito a um chorinho. Esta é de chocolate com coco. Esta é de canjiquinha feita no tacho. Você vai adorar.”
Então a tarde cai. E ali está um casal de jovens (eles já se informaram sobre Tiradentes?) comprando dois saquinhos com o Valdir. Ali estão as pombas se atracando umas às outras. As pombas bicando o milho que sobra no chão. Os ônibus, as motos e os carros, faróis acesos, fazem a curva para a Barão do Serro Azul (à esquerda) ou para a Tobias de Macedo (à direita).
E agora o casal já esta indo, a pé, de mãos dadas, perdidos de paixão um dentro do outro. Possivelmente na direção da Riachuelo. Será que vão assistir um filme no Cine Passeio? Será que uma performance, uma exposição na Alfaiataria?
Para o gosto dela tem muito bacon nessa pipoca. Para o gosto dele o coco combinou bem com o chocolate. E esta crônica é para os dois.