- Quais habilidades universitárias serão mais valorizadas no futuro próximo?
Qualquer tentativa de prever o futuro pode recair em especulações sem respaldo fático. Embora não saibamos quais serão as demandas futuras e as ofertas que o mercado precisará apresentar, podemos afirmar que é necessário continuar apostando no ensino universitário como meio de desenvolvimento do Brasil. Os índices indicam que 22% da população possui diploma de ensino superior no país – um avanço significativo se comparado aos 7% dos anos 2000, mas ainda distante dos 48% registrados nos países da OCDE. Precisamos, portanto, expandir o acesso ao ensino universitário sem descuidar da qualidade institucional.
As habilidades universitárias costumam se moldar ao momento histórico. Vivemos uma época paradoxal: simultaneamente, surgem tecnologias que substituem tarefas humanas e cresce a demanda por "tecnologias do cuidado", profundamente humanas. Se for para fazer uma aposta, as tradicionais habilidades técnicas de cada área do saber precisam, mais do que nunca, combinar-se com as chamadas "soft skills". Não basta ter um diploma sem conseguir comunicar adequadamente suas competências com clientes, pacientes ou colaboradores.
- A formação crítica ainda é um diferencial ou está sendo deixada de lado em favor de competências técnicas?
Não há oposição entre formação crítica e técnica quando ambas são bem compreendidas. As tecnologias são políticas, não neutras. Do nível mais elementar da vida cotidiana ao plano macropolítico, nossa existência é permeada por tecnologias derivadas de saberes técnicos. Sem capacidade de reflexão, as técnicas podem ser voltadas para a destruição. A possibilidade de refletir sobre nossas ações é um elemento humano de suma relevância. Sem essa habilidade, não aprendemos com o passado, estando fadados a repetir erros. Sem crítica, também não diagnosticamos o presente nem almejamos outros futuros. Competências técnicas desprovidas de consciência sobre sua finalidade e a serviço de quem estão produzem, em primeiro plano, alienação e, em estágio mais agudo, catástrofes.
- Como as universidades podem equilibrar teoria e prática para preparar melhor os alunos?
As universidades, apesar de ataques de espectros ideológicos que não compreendem sua importância, são instituições fundamentais para o desenvolvimento de uma comunidade política próspera e cívica. São espaços de formação de lideranças e transformação social – basta observar que pessoas em posições de poder normalmente possuem diploma universitário. O Vale do Silício não surgiu por "geração espontânea", assim como a aposta chinesa no aprimoramento universitário também integra uma disputa global pelo domínio dos saberes mais avançados.
A teoria sem prática é irresponsável; a prática sem teoria pode nos destruir. A atualização contínua dos saberes exige a combinação entre teorias que expliquem adequadamente os fenômenos que experimentamos e balizas conceituais que impeçam práticas desumanas. Alguém pode construir um prédio inabalável, mas inabitável. Da mesma forma, pode sonhar com um mundo ideal onde todos os conflitos são resolvidos e há acesso universal a tratamentos médicos. Mesmo nesse cenário utópico, continuaríamos enfrentando desafios: proteção de dados, diversidade de patologias, idades e demandas distintas. Por isso teorias precisam ser atualizadas e práticas submetidas a revisões, aprimoramentos e limites éticos.
Empregabilidade e mercado de trabalho
- O diploma universitário ainda é um passaporte para o mercado de trabalho?
Em um país subdesenvolvido e profundamente desigual como o Brasil, o caminho tradicional para ascensão social passa pelo diploma universitário. A Constituição de 1988 estabelece no art. 208 que o acesso aos níveis mais elevados de ensino ocorrerá "segundo a capacidade de cada um", enquanto menciona a progressiva universalização do ensino médio como objetivo. Temos um direito fundamental à educação que reconheceu estratos diferenciados de ensino: o médio como ideal universal e o universitário como não compulsório. A redação constitucional refere-se a "capacidade"; hoje se entende que seria mais apropriado falar em talentos ou aptidões.
É preciso reconhecer que algumas habilidades não passam pelo ensino superior e que profissões não regulamentadas dispensam diploma. Contudo, não podemos alimentar a narrativa perigosa de que o diploma é dispensável ou irrelevante. Mesmo que alguém tenha se tornado grande empresário "por conta própria", essa pessoa contratará apenas "self-made mans" para todos os setores ou buscará serviços especializados? O diploma é um passaporte, mas, dentro dessa metáfora, há passaportes mais ou menos poderosos.
O problema da narrativa do "self-made man" é ignorar o contexto, o momento histórico e as condições econômicas. Como consequência, surgem distorções. O Brasil lidera o número de influenciadores digitais — sintoma de que muitos passaram a acreditar em "dinheiro fácil", bastando ligar uma câmera para enriquecer na internet. Deveríamos mirar a liderança no PISA, combater o desvio de função nas escolas cívico-militares, projetar um futuro onde nossas universidades estejam entre as melhores do mundo, produzindo tecnologias inovadoras e atraindo os melhores cérebros. Continuamente desperdiçamos talentos por incapacidade de acolher institucionalmente as habilidades plurais deste país.
- Quais competências os empregadores têm buscado além da formação acadêmica?
O mercado demanda inovação. A destruição criativa de Schumpeter permanece relevante por explicar potentemente o funcionamento do capitalismo, capturando suas manifestações onde quer que surjam. Também cresceu a demanda por habilidades que auxiliam a gestão empresarial, como as "soft skills". Empresas buscam pessoas capazes de contribuir para o desenvolvimento de suas atividades. Diploma, cartas de recomendação e histórico profissional são credenciais para o posicionamento no mercado.
Evidenciar as competências desenvolvidas na graduação ou pós-graduação é importante, pois o reconhecimento de quais habilidades são desejáveis está em constante transformação. Saber empreender, ter iniciativa, inovar, manter boas relações interpessoais – de fato, nem tudo se ensina em faculdades, mas aquilo que é desenvolvido no âmbito universitário é muito importante. Além disso, cada pessoa possui vocação para habilidades distintas. Como reconhecemos e valorizamos diferentes talentos é algo que muda continuamente. Por isso as pessoas passaram a buscar meios de formação continuada, mudanças de carreira ou até mesmo o retorno ao mercado de trabalho.
- Como a universidade pode se adaptar às novas demandas do mercado sem perder sua essência formativa?
Uma esfera não pode monopolizar a outra, mas, sem dúvida, elas podem dialogar. Vamos imaginar que uma faculdade de engenharia ainda tenha em seu currículo aulas que tratem da tecnologia do carro Ford T ou que alguém lecione Direito Processual Civil com base no CPC de 1973. Pode existir interesse histórico sobre o carro e o CPC antigo, mas não exatamente do mercado. As universidades não precisam necessariamente ser instrumentalizadas e funcionar apenas com base nas demandas do mercado, mas não pode negligenciá-las por completo.
Por vezes, alguns procuram reduzir o papel das instituições de ensino e idealizam centros produtores de soldados e trabalhadores sem personalidade, mais um conjunto de tijolos para compor o “muro”. Este desejo totalitário deve ser afastado, ele não combina com nosso Estado Democrático de Direito e parece ser pouco produtivo. Podemos ir além, não deveria ser esta a demanda do mercado. Cada vez mais, podemos pensar em pessoas em diferentes áreas que acabam por se tornar “fenômenos de vendas” que são capazes de ir além das fronteiras entre as áreas dos saberes, que conseguem superar a localidade da sua própria cultura e alcançar demandas ou angústias universais. Tais pessoas não são soldados despersonalizados e apáticos que repetem atividades de forma pouco reflexiva.
As universidades precisam ser espaços abertos de produção de conhecimento, onde as ideias podem circular de forma livre, onde os debates possam ocorrer de maneira produtiva e plural. Em um primeiro momento, uma parcela da sociedade pode até não compreender a “utilidade” de todas as cadeiras universitárias, contudo, o fato de não conseguir transformar de imediato um curso sobre a Poética de Aristóteles em um “bestseller”, mas a obra continua importante, mesmo que alguém venha a dizer que os filósofos são “inúteis”. As instituições não possuem essências, os saberes hoje circulam nos mais diferentes lugares com todos os meios de comunicação que foram desenvolvidos. Contudo, vivemos um paradoxo, nunca se teve tanta informação e nunca se propagou, ao mesmo tempo, tanta desinformação. Então, as universidades continuam a ser o local por excelência da produção de saberes qualificados que dispomos.
Relevância do diploma
- Em um cenário de cursos livres, certificações digitais e aprendizado contínuo, qual é o papel do diploma tradicional?
O diploma “tradicional” continua a ser o passaporte para o mercado de trabalho. Não vejo de forma negativa cursos livres e similares, contudo, me parece que eles possuem função complementar. Não existe um curso livre para uma pessoa se tornar veterinária, advogada, médica, dentista, etc. Como havia dito, existem profissões que não estão regulamentadas e que por vezes conseguem uma boa colocação no mercado. Eu considero curioso o fenômeno brasileiro de que as pessoas parecem mais dispostas a gastar mais dinheiro com um cabeleireiro do que em uma consulta médica. Por óbvio que o fato de termos o SUS e convênios muda a percepção de mercado das pessoas.
Não vejo como um problema o fato de existirem ofertas paralelas para a formação de pessoas em funções diversas do diploma tradicional. Ainda temos dificuldade de acessar e concluir uma graduação. Mesmo com 22% de pessoas com diploma, com políticas públicas para que as pessoas cursem faculdades, não é fácil e simples reconhecer que o diploma é um meio de ascensão social legítimo e importante. Então, até por limitações econômicas, as pessoas só conseguem fazer cursos mais curtos ou atividades online. O ideal seria uma oferta que chegasse nos índices dos países da OCDE ou algo similar a isso. Nos parece que estamos longe ainda da universalização da oferta do ensino universitário.
- O diploma ainda é visto como um símbolo de status social ou apenas como requisito burocrático?
Sim, ainda é um símbolo de status social. Ele cumpre o requisito formal para o exercício das profissões regulamentadas, mas no âmbito do reconhecimento, ter em seu currículo um diploma de uma IES que possua as certificações oficiais do MEC, que atinja índices de qualidade em cada uma das áreas de conhecimento é um elemento fundamental. Na verdade, a questão é inversa, devemos continuar a adotar políticas de estado, que atravessem diferentes gestões públicas, no sentido da expansão, universalização e fornecimento de condições para que as pessoas possam realizar atividades de ensino, pesquisa e extensão de qualidade nas universidades.
Futuro e desafios
- Quais mudanças estruturais as universidades brasileiras precisam enfrentar para se manterem relevantes?
Não existe milagre, a valorização da educação precisa ser compartilhada por todas as pessoas. Enquanto a função do professor for tratada como irrelevante, facilmente substituível por qualquer pessoa sem qualificação para lecionar, não tiver reconhecimento público e social significativo estaremos condenados a ser um país que vive da expectativa de um futuro que nunca chega. Se não existe a valorização da educação nos níveis fundamentais, no âmbito superior isso se torna ainda mais difícil. E sem a compreensão de que a educação é aspecto fundamental para o desenvolvimento robusto da nossa comunidade política, para a formação de pessoas conscientes em termos de cidadania e para sua qualificação para o trabalho, continuaremos sendo a promessa não cumprida de “país do futuro”. Vivemos nas últimas décadas transformações sociais importantes em nosso país que decorreram da manutenção de políticas públicas acertadas de governos anteriores. Sobre as mudanças estruturais, as universidades continuarão a ser relevantes para a nossa sociedade. A percepção a respeito da relevância pode sofrer algum grau de invisibilização histórica ou pode parecer subjetiva, mas se as pessoas conseguissem ter consciência histórica da quantidade de contribuições derivadas de criações universitárias em suas vidas, talvez elas não reproduziriam de forma inconsciente que as universidades não são relevantes. O fato de alguém não compreender como algo funciona ou sua história não retira a relevância da coisa, apenas atesta a necessidade de educação.
- Como a inteligência artificial e outras tecnologias impactam a forma de ensinar e aprender?
As tecnologias não existem fora de contextos históricos e culturais. Não são neutras: servem para algo e alguém. O mundo existe em razão do sentido que lhe atribuímos, assim como as tecnologias. Não devemos nem nos assustar nem nos deslumbrar com elas. Elas refletem as desigualdades e problemas de nosso país.
Sobre a dimensão pedagógica, observamos recentemente a proibição de celulares nas escolas. Vivemos a era da economia da atenção. Como ambientes escolares podem competir pela atenção com dispositivos fabricados para distrair? No âmbito universitário, enfrentamos problemas similares. Além da desatenção causada pelas tecnologias, algumas pessoas as demonizavam enquanto outras as viam como salvação. Reconhece-se agora que podem ser grandes aliadas pedagógicas se utilizadas conscientemente e com propósito, auxiliando na solução de problemas e gargalos, mas nada disso acontece no vácuo.
É necessário repensar dinâmicas pedagógicas, mas há questões a enfrentar: vieses algorítmicos, perda de atenção estudantil, crença na desnecessidade docente. Ao fim, experimentamos as profundas desigualdades do país também nesta seara. Nas mãos de pessoas bem instruídas e conscientes, IAs generativas possuem potencial fantástico. Por outro lado, corremos o risco de abandonar habilidades humanas – raciocínio abstrato, imaginação, empatia – além de pessoas se iludirem com a tecnologia e utilizá-la para propósitos não programados envolvendo diversos níveis de risco. Certamente, atividades repetitivas e cansativas podem hoje ser substituídas por IA.
- Que conselho o professor daria a um jovem que hoje está escolhendo sua carreira universitária?
Reflita sobre aquilo que deseja fazer por um bom período da vida e em qual atividade está disposto a investir tempo, dinheiro e esforço. Não há caminhos fáceis; não se iluda com sucessos ocasionais. Acredite no trabalho duro. Arrisque-se, viva plenamente, aproveite amigos e amores – alguns vão trair você. Experimente tudo que esta fase oferece: conheça pessoas, línguas, comidas e lugares. Critique, duvide, reflita, reconheça erros, assuma responsabilidades (repita indefinidamente). Lembre-se: nem sempre os melhores ganham, então continue lutando, mesmo com este sabor amargo. Peça ajuda, tire dúvidas - ninguém nasce sabendo. Pare quando as coisas não funcionarem ou cruzarem limites. Reserve tempo para si, cultive seu espaço interior. Tenha autorrespeito. Ame, odeie, mas não desperdice chances importantes (kairós). Tenha coragem de dizer a verdade (parresia); não imite os outros, especialmente nos erros. Há extraordinário na simplicidade. Você não está sozinho. Se tudo der errado, procure os seus, converse com alguém, trace novos planos, talvez você se encontre preso a uma vida que não era a sua, tente, por isso, dar sentido para as coisas que você faz.