Tratada como cereja do bolo das privatizações, a venda da Celepar virou uma pedra no sapato no pré-candidato à presidência Ratinho Jr. (PSD). No caso das desestatizações de Copel, Copel Telecom e Compagás, o governador ligou o ‘tratoraço’ e passou por cima da mobilização dos trabalhadores, sindicatos e oposição. Dessa vez, ainda que com o mesmo modus operandi, a previsão de leilão em dezembro da empresa que concentra dados sigilosos dos paranaenses é cercada de mais dúvidas do que certezas. Essa pode ser uma grande derrota para Ratinho Jr..
Desacostumado a se justificar, o governador tem sido bombardeado por questionamentos jurídicos, financeiros e técnicos por todos os lados. Embora o governo negue a informação, o Tribunal de Contas do Estado (TCE-PR) suspendeu cautelarmente o processo de venda. Até o momento, não houve a devolução do pedido de vistas para julgamento feito pelo conselheiro Fernando Guimarães. Com isso, o processo segue em seu gabinete e com os procedimentos de desestatização paralisados.

Nesta quarta-feira (24), o Ministério Público do Paraná apresentou uma representação questionando a lei estadual que autorizou a privatização da Celepar. E é bom se recordar: lei aprovada em apenas oito dias na Assembleia Legislativa e sem nenhuma discussão com a sociedade.
Aliás, essa lei aprovada obscuramente também será alvo de um questionamento do PT e do PSOL em nível nacional. Ambos partidos devem apontar, no Supremo Tribunal Federal, incoerências que levam à inconstitucionalidade da legislação estadual.
Além disso, a juíza titular da Vara do Trabalho, Sandra Mara Flugel Assad, do Tribunal Regional do Trabalho da 9ª Região, concedeu liminar suspendendo o Programa de Desligamento Voluntário (PDV) da Celepar. O pedido do SINDPD-PR, que representa os funcionários da Celepar, sustenta ‘assédio’ aos trabalhadores a terem que renunciar a direitos legais. Modelo, aliás, semelhante ao utilizado na Copel.
E o que pode parecer um detalhe, acaba sendo um grande entrave, uma vez que a cartilha neoliberal prega que os compradores de uma empresa pública “não podem” herdar passivos trabalhistas. Traduzindo: demitir depois de comprar é mais oneroso.
Por outro lado, uma das principais pedras no sapato de Ratinho Junior veio da política. A oposição acertou no discurso de que a privatização traz risco de exposição de dados sigilosos dos paranaenses. Mais do que isso, está deixando claro a possibilidade de perda da soberania digital do Paraná. Este argumento mostra que o governador está traindo os interesses do estado e de seus eleitores, virando "capacho" dos interesses das big techs e de empresas internacionais. Por que vender uma empresa de excelência, legitimamente construída há 60 anos por verdadeiros 'bichos do Paraná' por uns trocados em dólar ou em euro?

Sim, é difícil de responder. Assim como é complicado responder sobre denúncias pontuais que tratam de contratos decorrentes da privatização, tais como o contrato com a Indra e com o Google. As dispensas de licitação estariam trazendo prejuízo bilionário ao Paraná? Ratinho terá que responder isso no exercício do cargo ou posteriormente.
E como apenas uma pedra não é suficiente para interromper a venda da Celepar, outras medidas judiciais estão sendo preparadas. Uma delas trata da preocupação de órgãos de controle da Administração com a condução da privatização.
Também estão em curso questionamentos jurídicos em outros Tribunais da Federação. Como a Celepar presta serviços para além do Paraná, serão protocolados procedimentos em pelo menos dois estados.
Por tudo isso, pelo pouco tempo que se tem para preparar questões burocráticas e apresentar respostas convincentes a órgãos estaduais e federais, é pouco provável que a privatização saia neste ano. E 2026 começa com Ratinho Jr. praticamente fora do Palácio do Iguaçu.