1
O primeiro se deu em 1982, quando eu tinha 9 anos de idade. Era um dia de semana e eu estava de carro, em companhia dos meus pais. As lembranças são um tanto enevoadas, mas recordo que almoçamos num restaurante nas imediações do estádio Couto Pereira, no Alto da Glória. Na televisão, um jornalista disse que uma revista americana havia listado 100 escritores de todo o mundo que, naquele momento, teriam chances de ganhar um prêmio Nobel de Literatura. Havia três brasileiros no rol: Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade e Dalton Trevisan. Meu pai mencionou que Dalton era curitibano e que morava nas imediações.
-A gente tem uns três livros dele lá em casa. Você já deve ter visto – comentou minha mãe.
-Sim, eu não só já tinha visto, como já tinha lido alguns dos contos, embora, à época não tivesse discernimento suficiente pra compreender todas as nuances daqueles textos. Quando saímos do restaurante, fomos pela rua Ubaldino do Amaral em direção à avenida Visconde de Guarapuava e meu pai apontou uma casa de esquina.
-Naquela casa que mora o vampiro, o Dalton.
-Mas o cara é vampiro mesmo? - indaguei.
-Não, Cândido – disse minha mãe sorrindo em tom sereno. - Não existem vampiros.
-Só no meu emprego eu conheço uns seis ou sete.
Minha mãe olhou feio em direção ao meu pai. O semáforo estava vermelho em frente à casa do vampiro e, subitamente, o portão se abriu, revelando um homem já de meia idade, boné na cabeça, calça jeans e tênis. Ele atravessou a rua e desceu em direção ao centro. Confesso que fiquei um pouco decepcionado, porque, aos 9 anos de idade, achava que os vampiros tivessem um visual um pouco mais ousado, ilusão que foi desfeita ao longo da vida.
2
Em 1994 eu era estudante de direito e estagiava num escritório de advocacia. O trabalho era pesado e envolvia, às vezes, andar da igreja do Guadalupe até o Fórum, no Centro Cívico, carregado de autos de processo. Eu fazia o percurso com facilidade, mas num determinado dia, saí do escritório com um pilha maior de processos. Era meio-dia e o calor estava particularmente intenso. Depois de algumas quadras, o suor já escorria pelo meu rosto e caía no meu olho, o que me forçava a parar, colocar os processos no chão, enxugar o rosto, pegar os processos de novo e continuar. Isso se repetiu umas três vezes até que na Praça Tiradentes resolvi parar e fumar um cigarro nas proximidades da floricultura localizada atrás do Paço Municipal.
Depositei os processos no chão, enxuguei meu rosto com a manga da camisa e tirei uma carteira de cigarro toda amassada do bolso de trás da calça. O cigarro estava torto e arrumei com displicência para que ele se tornasse fumável. Quando ia acender, percebi, com a vista periférica que estava sendo observado. Olhei rapidamente em direção a um grupo de pessoas que conversava ao lado de um café. Uma dessas pessoas me olhava e nossos olhares se encontraram por uns dois ou três segundos. Era o Dalton, reconheci na hora. Uma foto dele havia sido publicada na revista Veja, naqueles dias de comemoração dos 300 anos de Curitiba, eu estava com imagem nítida na mente. E ele me observava. Após a troca de olhares, ele se afastou. Nos anos seguintes, fiquei no aguardo de que ele publicasse um conto em que um estagiário de direito suado aparecesse fumando um cigarro amassado, mas creio que ele não desenvolveu a ideia.
3
Um ano depois, em 1995, eu trabalhava como escrivão de polícia. Eu não me via muito como um policial, mas prestei concurso, passei e o salário era melhor do que eu ganhava como estagiário. Lembro que, certa noite, estava de plantão e lá pelas duas da manhã, fui em companhia de um agente e do delegado de plantão a uma padaria que ficava aberta 24 horas, comprar uns salgados, coisa assim. A noite estava parada. Eu não precisava ter ido junto, mas resolvi acompanhá-los.
Na volta, uma mensagem veio pelo rádio da polícia, informando um homicídio numa rua perdida nas quebradas do Juvevê. Tomamos a direção indicada pelo rádio. Realmente o local não era de fácil acesso. As quadras em alguns pontos daquele bairro possuem uma distribuição labiríntica. Uma pequena multidão se aglomerava ao redor do corpo caído. Havia velas acesas em torno dele.
-O povo que coloca essas velas, sabe como é… - disse meu colega agente, enquanto o delegado conversava com dois policiais militares.
-Parece que foi vingança. Vamos aguardar o IML, eles já estão vindo – determinou o delegado. Era um cara relativamente jovem. Agachou ao lado do corpo e me chamou.
-Venha ver aqui, novato. Agacha aqui. Já viu um corpo de perto? Sete facadas. Olha o olho vidrado dele. Dá pra ver que morreu em completo desespero. É um olhar que mistura dor, angústia e, ao mesmo tempo, uma espécie de resignação, algum tipo de consciência de que não pertence mais a esse mundo. Não parece que ele já está vislumbrando alguma coisa lá do outro lado, lá do mundo dos mortos? – perguntou o delegado, soltando uma baforada de cigarro na cara do defunto.
Levantamos e olhei em direção ao grupo de curiosos que observava a cena em silêncio. Ali, no meio daquele povo, estava o Dalton. Não usava boné, mas seus óculos, o olhar e o cabelo grisalho eram inconfundíveis. Ele não percebeu que eu o flagrei. Imediatamente pensei como abordá-lo. À época eu andava com um minúsculo gravador no bolso, que me ajudava no trabalho como escrivão.
Pensei em entrevistá-lo e publicar o texto no jornal do diretório da Faculdade de Direito de Curitiba. Precisava me aproximar de modo sutil, sabia que ele era reservado e se negava a dar entrevistas, mas eu não podia perder aquela oportunidade. Ele parecia apenas mais um cidadão curioso, como todos os demais que estavam ali. Fui me aproximando discretamente até que fiquei atrás dele.
-Dalton – disse eu. O homem se virou em minha direção e fixou os olhos nos meus. Não parecia bravo ou incomodado.
-Podemos conversar dois minutos? - falei com olhar suplicante.
Ele respondeu:
-Não.
-Não vou te incomodar, só quero conversar um pouco – insisti (eu era jovem).
Ele permaneceu alguns segundos me encarando em silêncio, até que disse:
-Realmente não quero conversar, amigo. Nada pessoal.
Vendo que fiquei um tanto consternado com a negativa e, talvez, considerando o fato de que era um jovem conversando ali com ele numa situação inusitada, Dalton falou:
-Se algum dia você escrever sobre essa cena, não esqueça de incluir a fala do delegado sobre o olho do cadáver.
-Virou-se, pôs o boné e se perdeu numa daquelas ruelas escuras. Quando o IML chegou, uma chuva fria começou a cair.